O mar não está para peixe

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O mar não está para peixe, n. 115, 31 out. 1998.

 

 

Passadas as eleições, eis o pacote. Quem pensava que Sarney não seria repetido, enganou-se. Como em 1986, as urnas nem esfriaram e a população já leva o choque de mais impostos e recessão. FHC não têm sequer tempo de aprovar a fidelidade partidária antes. O FMI nada libera sem a certeza de que sua receita será aplicada. E os dólares continuam voando para lugares mais seguros, apesar dos juros estratosféricos.

Mas, de cara, o presidente enfrenta dificuldades em sua base de sustentação. Elas podem estar relacionadas com seu comportamento ao longo do primeiro mandato, quando a aprovação das medidas do Planalto sempre esteve sujeita a barganhas fisiológicas. E certamente estão relacionadas com o desgaste de FHC frente à crise. Não é somente João Ubaldo Ribeiro que se sente traído, embora por outros motivos.

Por outro lado, a suposição de que FHC contaria com uma oposição mais moderada parece ter se desmanchado no ar. O tipo de voto dado à oposição, além dos sinais emitidos pelas abstenções e votos nulos e brancos, empurra-a para uma atitude mais decidida contra o governo.

Afinal, o ajuste representa continuar preso na armadilha montada pelo governo com seu plano de estabilização, ancorado em capitais externos voláteis, que só aportam aqui com juros altos, câmbio valorizado, garantias antecipadas de pagamento e escancaramento externo. Não adianta melhorá-lo. Não tem remendo que o salve de uma sucessão de crises.

Nessas condições, qualquer contemporização ou vacilação frente à política do Planalto tende a ser cobrada por pressões sociais cada vez mais intensas. Quem duvidar disso, talvez devesse estudar com mais atenção o que aconteceu com Cristóvam Buarque. Portanto, mesmo que FHC não se defronte logo com uma resistência social aberta, vai ter que encarar uma base de sustentação política errática e uma oposição decididamente contrária ao pacote.

Os cenários para o governo não são nada favoráveis. O início do segundo mandato de FHC já parece o final do governo Sarney. Mas para a esquerda o mar também não está para peixe. Além de oposição decidida ao ajuste, chegou o momento dela apontar como mudar a política dominante e impedir que o país seja levado à bancarrota.

Em outras palavras, além de apontar o crescimento como solução, é preciso dizer que a conta desse crescimento terá que ser paga pelos banqueiros, pelos latifundiários e pelas grandes corporações multinacionais. Haja mar e haja peixe!

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