O mal que a falta faz

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O mal que a falta faz, n. 493, 01 abr. 2006.

 

 

Reiteramos que a atual contra-ofensiva da direita pode causar novos prejuízos ao PT e à candidatura Lula. Isso, pelo simples fato de que o PT e o governo permanecem com alguns flancos vulneráveis e sem proteção. Faltam explicações cabais sobre as políticas e as práticas de algumas de suas figuras de proa, que desencadearam a crise política ainda viva. E falta adotar uma política que iniba essas figuras de posarem como vítimas, e se arvorarem condutoras da defesa do PT e do governo.

Os acontecimentos com o caseiro, que afirma ter visto Palocci na casa de seus antigos amigos de Ribeirão Preto, envolvidos em negócios escusos, corrobora isso. A quebra do sigilo bancário do caseiro é o resultado de um certo modo de fazer política, que supõe que as alianças com setores da burguesia, para governar o Brasil, permitem ao PT aplicar os mesmos métodos desses aliados (e também dos adversários), no trato da coisa pública e da cidadania.

Os representantes políticos da burguesia têm uma história recheada de casos de corrupção, caixa dois, quebra de sigilos bancários e um rol variado de arbitrariedades. É incrível a desfaçatez e a hipocrisia com que eles se apresentam como campeões na defesa da coisa pública e dos direitos democráticos. Suas biografias não resistem a uma investigação, mesmo superficial. Mesmo assim, sequer ficam corados ao acusar o PT de pecados que eles praticam rotineiramente.

Apesar dessa hipocrisia, o PT precisa reconhecer que alguns de seus dirigentes copiaram métodos e políticas que são inadmissíveis num partido que se propõe transformar a sociedade. E considerar como uma completa ilusão de classe a suposição de que os representantes da burguesia, que têm como hábito a corrupção e o arbítrio, aceitariam sossegados que dirigentes PT os imitassem, e não se aproveitariam disso para tentar destruí-lo.

Enquanto o PT não acertar as contas políticas e éticas com esse pensamento torto, que ainda povoa a mentalidade de algumas figuras de seus quadros, casos como a dança da deputada pela absolvição de um colega e as trapalhadas e atentados à cidadania, cometidos pelo ex-ministro Palocci, certamente colocam em risco o PT e a reeleição de Lula.

Mais de trezentos mil militantes petistas participaram da maior eleição democrática interna do país. Demonstraram que o PT é a maior expressão política popular brasileira, e não concordam com os dirigentes que, embora apareçam na mídia como os pilares do partido e do governo, na verdade eram seus pontos mais frágeis e vulneráveis. O pior é que tais dirigentes negam-se a reconhecer isso. O mal que faz a falta de uma autocrítica séria dos erros e desvios cometidos pode danificar irremediavelmente a recuperação do PT e do governo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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