O jogo democrático

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O jogo democrático, n. 166, 30 out. 1999.

 

 

Segundo o global Arnaldo Jabor, o PT se recusa a participar do jogo democrático porque “não consegue raciocinar sem a idéia de ‘ruptura’ com a democracia, sem abrir mão da idéia de ‘tomada do poder’”, a exemplo da “proibição de governadores (obedientes) irem falar com o presidente, participar da vida política normal”. Isto o faz pensar: “Por que o PT não cai logo na clandestinidade?”.

Desde quando falar com o presidente faz parte da “vida política normal”? Esse é o problema da burguesia e da pequena-burguesia: elas sempre supõem que seu estilo global de vida é a regra geral. Na vida política normal, partidos e políticos de oposição, que se prezem, têm que medir bem a proposta de falar com um presidente, ainda mais se esse presidente é FHC, que não cumpre acordos nem com os aliados.

Além disso, o que tem a ver uma opção tática, que pode ser criticada como tal, com “ruptura com a democracia”, “tomada do poder” e cair na “clandestinidade”? Por que associar as atitudes táticas do PT às acusações que o regime militar costumava fazer a qualquer opositor?

Quem do PT pretende uma “ruptura com a democracia”? Se Jabor quisesse realmente falar em ruptura com a democracia, teria que denunciar FHC. Por que FHC pode romper com a Constituição, pode emendá-la e remendá-la quanto quiser e governar com medidas provisórias e ordens de serviço inconstitucionais e ilegais, e o PT não pode romper com FHC? Que jogo é esse, em que democracia vira sinônimo de sabujice de fazer tudo que seu mestre mandar?

Por que o tucanato e o coronelismo pefelista podem não só aspirar, mas tomar o poder, e o PT não? Partidos existem para tomar o poder e exercê-lo, e o PT não pode nem deve ser exceção à regra. Mas, ao relacionar “ruptura com a democracia” e “tomada do poder”, o comentarista global insinua que o PT pretende chegar ao poder por vias não-democráticas, embora saiba tratar-se de uma falsidade. A história do PT é coerentemente democrática, enquanto a prática de tomada do poder por vias não-democráticas é exclusividade das elites brasileiras, desde golpes militares a eleições fraudadas.

Se “qualquer programa de uma nova esquerda tem de passar pela aceitação da democracia”, como pontifica, isso deve significar um combate cerrado às rupturas com a democracia praticadas por FHC e seu governo. O PT só irá para a clandestinidade se falhar nisso, se não conseguir impedir que o atual pacto de dominação, que tem FHC como gestor, liquide até mesmo com o simulacro de democracia que temos no Brasil. Nesse caso, talvez Jabor acabe tendo razão ao afirmar que “um bando de pequeno-burgueses pôde impedir o avanço de um partido de origem operária”. Terá sido realmente uma pena…

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