O jogo das aparências

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O jogo das aparências; 12 ago. 1998.

 

 

Em 1994, tendo por base as miragens do plano Real, FHC roubou todas as grandes bandeiras do programa de oposição da esquerda, reuniu-as no marketing dos 5 dedos, e deixou a candidatura popular sem ter o que dizer.

Em 1998, FHC pretende repetir a dose. Diante das incertezas populares sobre os benefícios da sua estabilização monetária, copia todas as propostas sociais apresentadas por Lula, transforma várias delas em Medidas Provisórias e projetos de lei (o poder da caneta presidencia parece inesgotável), e procura crristalizar a idéia de que, enquanto a oposição promete, o governo faz.

Nesse mister, dá-se ao luxo de oferecer gato por lebre, desmantelando direitos trabalhistas a pretexto de aumentar as ofertas de emprego. Se isso deu certo nos Estados Unidos, por que não daria no Brasil? Este raciocínio simplista da equipe econômica só esquece que, ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil pratica juros escorchantes que travam o crescimento econômico. E, sem crescimento, nem mesmo a total destruição das leis do trabalho será capaz de reverter o desemprego.

Mas, o que importa para FHC, agora como em 1994, é semear ilusões. O que lhe importa, realmente, é o poder, para dar continuidade à abertura do país às grandes corporações multinacionais, especialmente as financeiras, ao sucateamento da indústria e da agricultura brasileiras e ao desmonte do Estado.

Se tudo isso está causando desemprego em massa, inadimplência, desagregação dos sistemas públicos de educação, saúde e moradia e, portanto, mais miséria e marginalização social, este não é um problema seu. Principalmente, se a maioria do eleitorado acreditar em suas promessas e for co-responsável por sua reeleição.

Afinal, essas conseqüências da política de FHC, que tem a estabilização monetária como eixo condutor, já estão à vista. Porém, nem mesmo a oposição consegue dizer alto e bom som que tal estabilização é um desastre. Mesmo porque parece achar que deve mantê-la, em lugar de apresentar outra, com fundamentos opostos, relacionados ao desenvolvimento econômico e social.

Assim, nesse jogo de aparências, em que a oposição não consegue se diferenciar, limitando-se a espernear contra o roubo de suas propostas, o ladrão leva uma vantagem enorme. Pelo menos, até que a esquerda apresente algo impossível dele carregar, ou que as tempestades financeiras o arrastem com todas as suas mentiras e promessas.

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