O jogo da sucessão

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O jogo da sucessão, n. 268, 27 out. 2001.

 

 

Até há pouco, o jogo da sucessão estava em pleno curso, mas os disputantes não pareciam seguros de seu time. Agora, feitas as definições partidárias, a tabela da disputa geral continua embaralhada, mas pela menos tem-se alguma idéia das dificuldades que cada postulante e cada partido deve enfrentar.

Itamar está candidatíssimo, havendo preferido arrostar a ira e o jogo bruto dos governistas do PMDB, ao invés da escalação pelo PDT, na esperança de que os 80 mil filiados que devem votar nas prévias daquele partido o escolham como preferido. Pode até quebrar a cara, na ilusão do democratismo das bases do PMDB, mas até janeiro de 2002 vai dar um trabalho danado à defesa do governo e do PSDB, que preferiam ter-se livrado dele definitivamente.

Brizola, que zelosamente vinha costurando uma aliança de Itamar com Ciro, está vendo frustrados seus sonhos. Primeiro, com o ingresso de Antonio Brito no PPS, sob os auspícios do próprio Ciro. Depois, com a decisão de Itamar de permanecer no PMDB. Assim, além de reclamar de Lula e do PT e da traição de Garotinho e do PSB, sente-se com razões para lamuriar-se daqueles cuja união vislumbrava como uma chapa imbatível para derrotar o candidato de FHC. E não se duvide que, ante tudo isso, decida lançar-se candidato a presidente só para afrontar a todos e procurar eleger uma forte bancada pedetista. Ele é bem capaz desse sacrifício final.

No PSDB, há muitas bolhas a respeito de Serra, mais parecendo bolhas de fritura em óleo fervente do que bolhas comemorativas de sabão. De qualquer modo, o partido de FHC continua sem saber que centro avante escalar, enquanto seu aliado PFL quer tirar Roseana Sarney do banco de reservas e até o PPB ensaia colocar Delfim Neto ou outro em campo.

Garotinho e o PSB, por seu lado, parecem mesmo dispostos a participar do jogo sucessório com time autônomo e, como sabem ser difícil conquistar a taça, na prática vão agir na botinada para contundir os concorrentes à esquerda e, principalmente, tirar pontos de Lula e do PT. Como ninguém faz isso de graça, é provável que os benefícios vislumbrados para o futuro sejam gordos.

Quanto a Lula e ao PT, ao invés da sonhada aliança de centro-esquerda, continuam isolados na companhia solitária do PCdoB e, provavelmente, do PV, PCB e do PSTU. Em outras palavras, seu arco de coligados reduziu-se, por motivos ainda não avaliados em toda a sua extensão, chocando-se contra sua própria política de alianças.

Paradoxalmente, as condições para uma vitória de Lula em 2002 são muito mais favoráveis do que em 89, 94 e 98. As aspirações de mudanças econômicas, erradicação da pobreza, fim da corrupção, defesa da soberania nacional, ampliação da democracia participativa e até mesmo implantação de medidas socialistas nunca foram tão fortes na sociedade brasileira.

Empalmar tais bandeiras, transformando-as em símbolos que congreguem milhões, unifiquem a esquerda, atraiam parte considerável do centro e tornem avassaladora a vitória de Lula e do PT não dependem porém apenas daquelas condições favoráveis. Dependem da estratégia para aproveitá-las. E aí a conversa é outra.

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