O inimigo principal

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O inimigo principal, n. 234, s/d.

 

 

A tática parlamentar da esquerda durante o embate pelas presidências da Câmara e do Senado mostrou-se correta. Em primeiro lugar, permitiu que ela se dissociasse daquilo que a opinião pública identificou como lama. Depois, contribuiu para que acentuasse a divisão no bloco governista, obrigando uma parte dele a assumir, mesmo demagogicamente, bandeiras que a esquerda levanta há muito, como a limitação das aberrantes medidas provisórias e a moralização do parlamento. E, por fim, liquidou com a obediência cega a pretensas regras regimentais, que o lado de lá só observa quando são do seu interesse e que impedia a esquerda de se diferenciar, mesmo quando a lama subia à tona com toda a força.

Apesar disso, a atitude de alguns partidos e parlamentares alinhados com a esquerda sinaliza que, entre eles, ainda persiste a idéia de que FHC e, por tabela, o PSDB não são o inimigo principal das forças populares, porém ACM e o PFL. Os movimentos do PSDB, através de Covas e Aécio, com a ajuda do centrista PMDB, teriam libertado o partido e FHC da tutela conservadora de ACM-PFL.

Como num passe de mágica, o fato do PMDB haver se tornado um partido tão fisiológico e conservador quanto o PFL e de todos eles – PSDB, PFL e PMDB – haverem apoiado FHC no processo de destruição da economia e da sociedade brasileiras, em proveito das grandes corporações transnacionais, passam a segundo plano. Do mesmo modo que a mídia, tão acostumada a fazer alarde em torno de quase nada, fez passar na surdina a informação de que o Brasil passou de 7ª potência industrial do mundo para 11ª, atrás da China, Canadá, Itália e Coréia do Sul.

Para aqueles setores da esquerda, com o PFL isolado, PSDB e PMDB teriam se deslocado para centro, abrindo chances para uma futura composição progressista de centro-esquerda. O retorno de Itamar ao regaço do PMDB seria indicação segura desse deslocamento e nada mais natural que toda a esquerda se incorporasse a esse processo.

Como em muitas ocasiões da história da esquerda no Brasil, encontramo-nos de novo diante da confusão quanto ao inimigo principal. Não será a primeira vez que uma parte dela considera o inimigo secundário, no caso o PFL, como principal, e o inimigo principal, no caso FHC e o PSDB, como aliado. Isso aconteceu em 1929-30, 1941-45, 1946-47, 1953-54, 1963-64, 1983-84, 1988-89, 1993-94 e durante um largo período entre 1994 e 1997, quando foram muito fortes as ilusões em FHC. Toda vez que essa confusão foi predominante, o desastre foi o resultado colhido pela esquerda. Será que teremos a repetição desse mesmo filme?

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