O inimigo principal

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O inimigo principal, n. 360, 23 ago. 2003.

 

 

Há um fenômeno que parece recorrente na história da esquerda brasileira: transformar parte das próprias forças em forças inimigas, principalmente em função de divergências táticas. Lendo boa parte da produção recente de textos e cartas de intelectuais e ativistas da esquerda, em geral petistas, nota-se a rapidez com que eles tomam o PT e Lula como inimigos principais e alvos, não só de suas frustrações, mas de sua ira. Em grande parte dos casos já não se trata de discordâncias pontuais, mas da oposição entre “nós” e “eles”.

No esforço de demonstrar o acerto dessa atitude, recorrem até a Marx e Lênin. Infelizmente, no caso de Lênin, muitos se esquecem que ele venceu uma revolução, não uma eleição. Omitem que, em seu tempo, ele foi chamado de traidor por fazer a paz com a Alemanha, contra os que pretendiam dar amplitude mundial à revolução. Não dizem que ele se viu obrigado a esmagar a insurreição dos “companheiros” anarquistas, que o tomaram como inimigo. Nem que teve de apelar, logo após o esgotamento do “comunismo de guerra”, ao apoio de setores da burguesia russa e internacional para levar adiante a Nova Política Econômica – NEP, um enorme recuo estratégico (não só tático) em relação aos objetivos que a revolução tinha se proposto.

Para completar, também não se deve esquecer que Lênin morreu prematuramente em conseqüência dos ferimentos de um atentado realizado não pela direita russa, mas pelos “socialistas revolucionários”, que se consideravam a “verdadeira esquerda”. Ou seja, se queremos apelar aos clássicos, é sempre útil, como ensina a história, contextualizar o que eles disseram e medir os resultados práticos, já que a maior parte do que afirmaram ou escreveram somente foi válida para situações históricas particulares.

Nesse sentido, a história deu razão tanto à audácia de Lênin, ao aproveitar a situação revolucionária russa, em 1917, para conquistar o poder, quanto aos seus recuos estratégicos e táticos, entre 1918 e 1921, tendo em vista a situação real da Rússia e a correlação de forças internacionais. E aqueles que o tomaram como inimigo principal somente conseguiram aumentar as dificuldades com que se defrontava o novo poder.

Assim, um dos aspectos universais dessa experiência consiste em que é um erro tomar como inimigos parte das próprias forças e os amigos e aliados, em virtude de discrepâncias em torno da tática, ou mesmo de certos recuos estratégicos relacionados com a correlação real de forças. Toda vez que isso ocorreu, os verdadeiros inimigos principais é que se aproveitaram para derrotar a esquerda. Talvez seja útil refletir sobre tudo isso toda vez que nossa discordância com o governo Lula acender a tentação de considerá-lo como inimigo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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