O ilusionista II

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O ilusionista II, n. 153, 27 jul. 1999.

 

 

FHC supunha ter voltado a dominar a cena, com seus malabarismos ministeriais, mas num lance digno de um David Copperfield, Mister M e outros grandes prestigitadores modernos, ACM o deslocou para um papel secundário. Num passe, retirou a Ford do noticiário, quando veio à luz o verdadeiro motivo da instalação de sua fábrica na Bahia, e se projetou como defensor dos pobres.

A Ford, seguindo a tendência das grandes corporações de encontrar locações capazes de otimizar seus lucros, pretendia transferir-se de São Paulo com custo zero. O governo Olívio Dutra frustrou a negociata gaúcha ao impor à montadora a renegociação do acordo firmado com Antonio Brito. Entretanto, ACM conseguiu beneficiar a mutinacional não só com isenções fiscais, mas também como financiamentos vultosos do BNDES.

Num feito à altura de grandes mestres, mobilizou o apoio de setores políticos nordestinos, inclusive de esquerda, criou um ambiente de expectativa sobre o que faria se FHC não desse o aval federal aos privilégios escandalosos oferecidos à montadora e, de surpresa, transformou o caso Ford no imposto contra a pobreza no momento em que a empresa anunciava não a implantação de uma nova fábrica, mas a relocalização da planta de São Paulo.

Qualquer que seja o resultado da discussão sobre o imposto proposto, o fato é que ACM voltou a pautar o debate nacional e retirou o fóco principal das atenções sobre o subsídio ao desemprego, propiciado pelo financiamento público à instalação da Ford na Bahia. De quebra, estimulou as ilusões sobre as formas de resolver o problema da pobreza, como se esta fosse uma simples consequência da distribuição iníqua da renda e para cuja solução bastasse tributar alguns segmentos sociais e criar programas assistenciais de renda mínima, bolsa escola e outros idênticos.

ACM não esconde que a situação do povo está de tal ordem que, segundo ele, ninguém mais consegue andar nas ruas. Para quem prepara a candidatura à presidência, esse é um dado que não pode ser desdenhado. Assim, crente de que encontrou o caminho das pedras para chegar ao coração dos desvalidos,  ACM promete, além de liquidar a pobreza, fazer Lula desaparecer.

Como, no Brasil a liquidação da pobreza é realizada, violenta e literalmente, na mesma proporção em que é gerada, espera-se que a ambiguidade da promessa seja apenas fruto da arrogância do mágico, ao considerar-se infalível. Mesmo porque, há os que, em vez de fazerem os outros desparecerem, somem a sí próprios. Se isto acontecer a ACM, ele não será o primeiro ilusionista, nem certamente o último, a realizar tal façanha.

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