O feijão da realidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O feijão da realidade, n. 504, 10 jun. 2006.

 

 

Ainda bem que a discussão sobre o socialismo tem estimulado leitores, comentaristas e candidatos a dizerem o que pensam. E não deixa de ser interessante ver alguns, que há pouco bradavam a necessidade de uma luta imediata pelo socialismo, agora falarem que essa é uma meta para um futuro distante.

Ou seja, entre o sonho da disputa teórica, em que é fácil acusar aos adversários de haverem abandonado a luta pelo ideal socialista, e o feijão da realidade da disputa eleitoral, que exige propostas que correspondam ao nível de combate e de consciência da população e do eleitorado, os radicais de ontem amansam o discurso e se tornam realistas políticos.

Não queremos dizer com isso que alguns de nossos socialistas radicais se tornaram covardes. O socialismo, como toda luta política, não é uma questão de covardia, ou de coragem, embora a coragem seja essencial quando os momentos das batalhas decisivas se apresentam. A coragem não resolve a necessidade de realizar o delineamento teórico que o socialismo exige hoje, após mais de 150 anos de experiências de lutas. E também não consegue dar resposta aos problemas de estratégia e tática colocados pela luta concreta. Isto é, dar resposta à relação entre as condições presentes e as perspectivas futuras.

Nessas condições, o debate sobre o socialismo precisaria ser pautado menos pelas supostas definições sobre quem é realmente socialista, e mais pelo conteúdo do que realmente esse conceito deve significar em termos econômicos, sociais e políticos. O que inclui, necessariamente, um debate sério sobre o capitalismo brasileiro, ou a forma brasileira de desenvolvimento capitalista, já que o nosso socialismo será, necessariamente, uma conseqüência dessa forma capitalista de desenvolvimento.

Não se pode construir o socialismo destruindo tudo que foi criado pelo capitalismo, muito menos suas forças produtivas materiais. Os que tentaram fazer isso fracassaram redondamente. Ao lado dessa problemática, tanto teórica quanto prática, que tem por base uma rica história de erros, derrotas, e também algumas vitórias significativas, é preciso ainda ter em conta que a luta pelo socialismo não pode ser apenas uma luta de grupo. Se não se transformar em luta de milhões, nada feito, por mais radicais e belos que sejam os discursos.

Talvez por isso, quando chega na hora do feijão da realidade, não são poucos os que abandonam seus discursos sobre as reformas socialistas profundas, e se vêem obrigados a rebaixar suas reformas ao nível do capitalismo inclusivo, com democracia e justiça social efetivas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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