O desafio popular

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O desafio popular, n. 309, 17 ago. 2002.

 

 

Quem tinha dúvidas sobre o verdadeiro candidato do capital, talvez sinta-se mais seguro com a explicitação da FIESP e do capital internacional. José Serra foi sagrado na FIESP. E, repetindo 1998, o capital internacional levou o FMI a fazer um empréstimo de 30 bilhões de dólares para salvar… Quem? O Brasil? Ou o candidato deles?

O apoio da FIESP para Serra tem peso pelo poder econômico que seus membros detêm. Mas a “doação” do FMI foi uma tentativa ainda mais poderosa para modificar a conjuntura. Pretendia salvar o governo do desastre, mesmo momentaneamente. E lhe permitir, com a maior desfaçatez, apresentar como salvação o que não passa de uma operação em que o endividado coloca o pescoço na corda que o agiota lhe oferece.

É evidente que 30 bilhões de dólares não tirarão o Brasil do buraco em que se encontra. Mesmo porque não vieram para fazer o Brasil crescer, reduzir o desemprego, nem melhorar as condições sociais. Como fez o capital internacional em 1998, vieram para alimentar de dólares os especuladores, criar um falso ambiente de segurança até as eleições, e permitir ao candidato oficial condições de enganar os incautos e “levantar-se”, já que está em queda livre.

No entanto, esse dinheiro também foi um atestado de que o Brasil está quebrado. E é essa percepção do chamado mercado que está impedindo que tal injeção emergencial surta os efeitos desejados pelo governo e seu candidato. Além disso, mesmo que o mercado se acalme, não há garantias de que Serra desempaque.

Se isso for verdade, os sentimentos oposicionista e mudancista do eleitorado já são mais fortes do que qualquer manobra enganadora. Neste caso, o governo e o capital terão que desembarcar numa das candidaturas “oposicionistas” e “mudancistas”. O problema para eles, apesar das dúvidas de setores angustiados da esquerda, continua sendo derrotar Lula e, principalmente, o que ele representa.

Nessas condições, em qualquer dos casos, as forças populares não podem vacilar diante de três pontos chaves para o atual momento. Primeiro, repisar que o único candidato que possui uma história de oposição é Lula. Segundo, reiterar as mudanças econômicas, sociais e políticas que o Brasil precisa. Terceiro, mais ainda do que em 1989, criar uma mobilização social e política de envergadura, que dê transparência ao caráter oposicionista e mudancista da candidatura Lula e a empurre para a vitória.

Se o FMI pretendia mudar a conjuntura a favor do governo e do capital com 30 bilhões de dólares, por que as forças populares não podem se colocar o desafio de mudar a conjuntura a seu favor com a mobilização de milhões de brasileiros que querem mudanças?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *