O capitalismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O capitalismo, n. 509, 22 jul. 2006.

 

 

É engraçado como substantivos são transformados em adjetivos, sem que as pessoas percebam. Para uns, a exemplo de uma leitora do Correio, espantada com a possível existência de um capitalismo das elites, capitalismo virou adjetivo, do mesmo modo que neoliberalismo, reformismo, revolucionarismo, etc.

Bastaria, no entanto, que ela considerasse o capitalismo um substantivo, algo real pululando à sua volta, para descobrir que, além do capitalismo das elites, também existe um capitalismo desnaturado, que de propósito chamo de capitalismo democrático. O que são os donos de pequenas fábricas de quintal, de pequenos negócios, de micro-empresas urbanas e rurais? Por acaso não são capitalistas? O que são os donos de empresas médias? Não são capitalistas?

São todos capitalistas, independentemente da noção que tenham de si próprios, ou do adjetivo com que se ornem. Todos só podem existir e reproduzir-se como empreendedores se, com seu capital, mesmo pequeno, extraírem a mais-valia da força de trabalho que compraram no mercado. Nesse sentido, e apenas nesse, não se diferenciam dos grandes capitalistas, daquele capitalismo que qualifiquei como das elites, em comentário anterior.

Porém, nas demais características da escala econômica, social e política, tal capitalismo pequeno e médio não pode comparar-se ao capitalismo das grandes empresas e das corporações. Porque este capitalismo das elites vive levando os pequenos e médios capitalistas a constantes surtos de destruição, em virtude dos processos de concentração e, principalmente, de centralização do capital.

No Brasil, em especial, as prematuras oligopolização e monopolização capitalistas impediram a reforma agrária (historicamente, uma medida tipicamente capitalista democrática) e a ampla democratização do capital, uma das condições para o desenvolvimento mais consistente das forças produtivas. Essa situação econômica real introduz, naquele setor democrático do capitalismo, uma ambivalência social e política. Suas contradições com o capitalismo das elites os impele a lutar contra este em várias frentes, embora também os atraia para aliar-se a ele em outras frentes.

Não levar em conta essa diferenciação e essa situação não passa de miopia diante da realidade. E, tratar esses capitalismos diferentes como um só representa um erro social e político. Mesmo porque, nas presentes condições brasileiras, não será possível resgatar a força dos trabalhadores sem adotar propostas e atitudes que atraiam o capitalismo democrático para seu lado, e ajudem a esquerda a isolar e golpear o capitalismo das elites. Para isso, embora a ideologia permaneça uma necessidade, é preciso utilizar a política como instrumento para conhecer as diferenças passíveis de dividir o inimigo e derrotá-lo por partes. O que parece estar faltando para uma boa parte da esquerda.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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