O capitalismo das elites

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O capitalismo das elites, n. 507, 08 jul. 2006.

 

 

Como pensar que se pode construir uma nova sociedade com Lula ou com Alckmin? Pode-se até supor, como alguns, que Lula não levará a uma nova sociedade. Seja porque acham que Lula não a quer, seja porque, mesmo que ele queira, isso não depende apenas dele.

Mas supor que se pode construir uma nova sociedade com Alckmin, aí já é acreditar que a elite brasileira pode se transformar em seu oposto. Quando falo em elite brasileira, não falo de uma elite capitalista nativa, desejosa de desenvolver o sistema de forma autônoma e soberana, como fizeram as elites capitalistas de outros paises. Falo de uma elite colonizada e submissa, obediente aos padrões imperiais. Uma elite sempre pronta a latir grosso, e a morder os pobres e fracos (daqui e de outros países), mas a miar baixo e rastejar diante dos ricos e poderosos (daqui e das potências industriais).

É essa elite que pretende retornar ao governo com Alckmin, FHC, Serra, ACM, Bornhausen etc. etc. O capitalismo dela é esse capitalismo rasteiro, desnacionalizante, desindustrializante, que gera um tipo de modernidade que funciona como fachada para esconder o alastramento da miséria e da desagregação social. Um capitalismo que, ao invés de produzir os seus coveiros, os operários, produz uma massa enorme de deserdados sem trabalho, sem escola, sem renda. Uma massa que, para sobreviver, precisa vender sua força de trabalho como gavião do tráfico e soldado do banditismo.

Nessas condições, o que está em pauta hoje no Brasil não é ser contra ou a favor do capitalismo em geral. O que está em pauta é ser contra esse determinado tipo de capitalismo, comandado pelo sistema financeiro e pelas grandes corporações transnacionais. Um tipo de capitalismo que impede o desenvolvimento das forças produtivas, dilacera a força social dos operários, expulsa os pequenos e médios proprietários camponeses de suas terras, transformando-os em parias sem-terra, e concentra a propriedade e a riqueza, aniquilando o pouco de democracia patrimonial aqui existente. Um tipo de capitalismo que se sente incomodado pelo fato de o PT estar no governo e, mal ou bem, ameaçar seguir outro caminho.

É evidente que comunistas e socialistas são contra o capitalismo. Mas, ainda sem condições sociais e políticas para substituí-lo, têm que lutar pela reforma agrária, pela democratização da propriedade, pelo crescimento econômico, por salários justos, pela redistribuição da renda. Ou seja, por reivindicações e aspirações de conteúdo capitalista, que intensifiquem os movimentos sociais. É por isso que a esquerda no Brasil de hoje vai além dos comunistas e socialistas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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