O Brasil e a experiência chinesa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O Brasil e a experiência chinesa, n. 537, s/d.

 

 

Enquanto no Brasil as estatais eram privatizadas na forma escusa que se conhece, na China, elas foram elevadas a um novo papel estratégico, ganhando autonomia para atuar no mercado e fazer associações de diferentes tipos com empresas privadas, nacionais e estrangeiras, tanto para expandir o capital privado nacional, quanto para internalizar altas e novas tecnologias, levadas por empresas estrangeiras.

Apesar de os neoliberais serem ignorantes sobre as estratégias chinesas de crescimento, eles têm certa razão quando afirmam que alguns aspectos dessas estratégias não são adaptáveis às condições brasileiras. Por exemplo, quando as reformas chinesas tiveram início, em 1980, havia uma poupança popular incalculável naquele país, fruto de 30 anos de uma combinação de pleno emprego, escassez de oferta, preços baixos, subsídios à educação, saúde e moradia, inflação perto de zero e baixo endividamento público.

Esta combinação, alavanca importante para o desenvolvimento chinês, está ausente da situação brasileira. No Brasil, serão necessários mecanismos não apenas para redistribuir a renda, mas também para desconcentrá-la fortemente, e democratizar a propriedade capitalista, de modo que a desconcentração não seja revertida rapidamente. Nesse sentido, reforçar o papel do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, como bancos de desenvolvimento, voltados fortemente para o financiamento de pequenos e médios projetos industriais e agrícolas, com mecanismos ágeis, como os das cooperativas de crédito e do banco popular, é essencial. Algo que não passa nem perto do pensamento neoliberal.

Outro aspecto da estratégia chinesa, desconhecido dos neoliberais, é o papel das estatais na reforma pós-1980. Com uma estrutura industrial e comercial constituída apenas por empresas de propriedade estatal e coletiva, os chineses não tinham experiência na transferência de tecnologias para o setor privado e no adensamento dos segmentos nacionais de suas cadeias produtivas. Isso eles aprenderam com a Petrobras, a Vale do Rio Doce e outras estatais brasileiras.

Assim, enquanto no Brasil as estatais eram privatizadas na forma escusa que se conhece, na China, elas foram elevadas a um novo papel estratégico, ganhando autonomia para atuar no mercado e fazer associações de diferentes tipos com empresas privadas, nacionais e estrangeiras, tanto para expandir o capital privado nacional, quanto para internalizar altas e novas tecnologias, levadas por empresas estrangeiras.

Retomando sua antiga experiência, o Brasil poderia dar, a suas estatais restantes, autonomia para atuar no mercado e adensar suas cadeias produtivas, através de associações com o capital privado nacional, atração de capitais estrangeiros e internalização de novas e altas tecnologias. Mesmo que não seja possível reverter as privatizações fraudulentas, a transformação das estatais em instrumentos de política econômica pode fortalecer o papel do Estado na economia e dar-lhe capacidade para orientar o seu rumo futuro. Sabendo-se, de antemão, que a grita neoliberal será intensa.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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