O bosque e as árvores

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | O bosque e as árvores, n. 557, 04 jul. 2007.

 

 

Quando falamos em capitalismo, falamos no bosque, no sistema aparentemente homogêneo, que emprega o capital acumulado anteriormente para acumular mais capital, através da relação que estabelece com o trabalho na produção. É o valor excedente, o lucro gerado pelo trabalho no processo produtivo, que permite ao capital acumular mais capital, e continuar se reproduzindo.

Mas, quando penetramos no bosque capitalista, além de encontrarmos o trabalho, também nos deparamos com árvores de diferentes tipos, constituindo sub-bosques, de diferentes momentos históricos, e de diferentes interesses particulares. Em outras palavras, nem o bosque é homogêneo, nem é o mesmo que era antes, e isso tem importância, tanto do ponto de vista econômico, quanto social e político.

Do ponto de vista econômico, nos diferentes ramos do capitalismo, encontramos setores ou grupos de empresas com maior ou menor emprego de máquinas e trabalhadores, com maior ou menor lucratividade, e se digladiando pelo mercado. Do ponto de vista político, como explicar a feroz tentativa de derrubar o presidente do Senado, a não ser pela disputa intestina entre diferentes setores burgueses?

No Brasil, os setores mais desenvolvidos e lucrativos da economia estão em mãos de corporações transnacionais, e de algumas poucas corporações capitalistas nacionais. O setor financeiro das corporações empresariais passou a ser determinante, realizando movimentos de alto risco, na busca desvairada de rentabilidade e concentração do capital. Sua expressão social, a alta burguesia, vive a crise existencial de querer acabar com o Estado, ou torná-lo inexpressivo e, ao mesmo tempo, mantê-lo e manipulá-lo.

Precisa do Estado, tanto do Executivo, quanto do Senado e da Câmara, assim como do Judiciário, para defender seus interesses diante de outras camadas, de outros setores da própria burguesia, e da sociedade. E precisa ainda do Estado para realizar os altos investimentos de infra-estrutura, indispensáveis para a produção, distribuição e circulação das mercadorias, mas de retorno lento demais do capital investido.

Assim, na disputa pelo Estado, vale tudo. Inclusive incentivar movimentos “verdes” e de “direitos humanos”, como fizeram para derrubar os regimes do leste europeu, embora não tenham compromisso algum com a defesa do meio ambiente, nem com a observação dos direitos a emprego, renda, vestuário e moradia, direitos humanos sem os quais o resto é pura balela.

Assim como, em outros casos, e com pretextos idênticos, tentem impedir certos ramos produtivos, ou de infra-estrutura, que competem com seus interesses particularistas, estimulando campanhas contrárias. Quem tiver curiosidade, basta prestar atenção à campanha contra as hidrelétricas, em todas as partes do mundo, para descobrir que, atrás do bosque capitalista, estão as poderosas árvores petrolíferas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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