Novo atentado em preparação

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Novo atentado em preparação, n. 281, 02 fev. 2002.

 

 

Os rumos que estão tomando as investigações policiais, e também grande parte do noticiário, a respeito do assassinato do prefeito Celso Daniel, são bem uma amostra da natureza política do evento. De um momento para outro, além de concentrar-se apenas na hipótese de participação do empresário amigo do prefeito no crime, a polícia, a promotoria de São Paulo e a grande imprensa têm se esmerado em suscitar dúvidas sobre a lisura dos contratos da prefeitura de Santo André com seus fornecedores.

Em outras palavras, prossegue a caçada, não aos que assassinaram fria e cruelmente Celso Daniel. De vítima de um crime sanguinário, esse dirigente petista corre o sério risco de ser transformado em réu, post-mortem, de crimes fictícios. E seu partido, de partido comprometido com a ética, em partido igual ou pior do que os que estão por aí. Nessas condições, está em curso a preparação de um novo atentado contra o PT.

A polícia se esforça para circunscrever o crime contra Daniel na vala dos crimes de natureza comum. Pior, na vala ainda mais suja dos crimes relacionados com falcatruas no patrimônio público. Pretende obscurecer o fato de que, ao envolver o crime organizado e dirigir-se contra um prefeito e, ainda mais, coordenador do programa de governo do PT, aquele crime revestiu-se imediatamente de conotação política, mesmo que suas motivações possam não ter sido imediatamente políticas.

Pode-se admitir que a quadrilha tenha se enganado de alvo. Pode-se até admitir a hipótese do envolvimento do empresário Sérgio Gomes, ou de outros empresários. Num crime como esse, todas as hipóteses devem ser admitidas como possíveis. Mas nenhuma delas pode ser tratada levianamente, dando-lhes publicidade sem provas ou indícios consistentes. Na verdade, com uma incompetência flagrante na perícia das cenas e objetos envolvidos no seqüestro e no assassinato, a polícia tem demonstrado, com a conivência da grande imprensa, uma competência invulgar na busca e divulgação de pistas falsas, que apenas embaralharam a opinião pública e apontam para um novo atentado político ao PT.

Por outro lado, já era tempo desse partido haver compreendido que os repetidos crimes contra seus militantes e dirigentes são realizados com a conivência das autoridades constituídas. Que a polícia não tem interesse algum, nem capacidade, para resolvê-los. E que, ao contrário, ambas têm constantemente se esforçado para transformar as vítimas em réus dos crimes que as abateram.

Em outras palavras, sem adotar medidas independentes para esclarecer os crimes, suas pressões sobre as autoridades nacionais e estaduais, suas propostas institucionais sobre segurança e suas mobilizações pela paz e contra a violência podem ser inócuas. Seu simbolismo, de partido que tem capacidade e força para mudar a sociedade brasileira para melhor, pode esvair-se no lodaçal do teatro armado pelas forças cujo único interesse é derrotá-lo, seja nas urnas, seja abatendo-o a tiros, com a ajuda do crime organizado, seja das duas formas.

 

 

 

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