Nós e o BRIC

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Nós e o BRIC, n. 383, 08 fev. 2004.

 

 

Têm sido recorrentes, nas últimas semanas, os comentários da grande imprensa sobre as possibilidades do Brasil e dos emergentes Rússia, Índia e China (grupo denominado BRIC). Por um lado, expressam o ufanismo de virmos a ser uma das grandes potências do futuro. Por outro, empenham-se com afinco em desancar e desqualificar os outros países do BRIC, principalmente depois que agências de risco elevaram a cotação da Rússia, Índia e China e mantiveram baixa a do Brasil.

A Rússia teria um passado de moratória, regras institucionais fracas e imensa corrupção. A Índia, além de uma massa de 400 milhões de miseráveis, praticaria controle de câmbio e déficit público. A lista dos defeitos da China seria infindável. Primitiva do ponto de vista institucional, ela não possuiria leis para os trabalhadores, o meio ambiente e os negócios. Sem sistema legal, o povo seria dominado por uma ditadura truculenta. Seus bancos públicos teriam um rombo de 400 bilhões de dólares, o sistema estatístico não seria confiável e a mão-de-obra, além de barata, seria super explorada. Isso para não falar de contenciosos com Hong Kong e Taiwan, perigos iminentes para a paz na Ásia etc. etc. etc.

É verdade que não chegam a esconder que a Rússia aumentou, e muito, a sua produção, exportações e reservas. Nem que a Índia tem atraído muitos capitais externos e elevado suas taxas de investimento, apesar do controle de câmbio, e mantido a inflação sob controle, apesar do déficit público. Ou mesmo que a China é o maior captador de recursos internacionais (57 bilhões de dólares em 2003), forma 300 mil engenheiros por ano, tem capacidade e eficiência técnicas, já possui um mercado efetivo de 250 milhões de pessoas e um mercado potencial, em crescimento, de 800 milhões. Ou, ainda, que, sem quase ninguém vivendo abaixo da linha da pobreza, a China é um dos mais lucrativos países do mundo, devendo transformar-se na maior potência econômica do planeta nos próximos 20 anos.

Nossos comentaristas acham, porém, que tomar como parâmetros apenas o nível de reservas internacionais e o volume do comércio (que são expressão do crescimento real) seria insuficiente para classificar a solidez econômica de um país. Mas, como sabemos que eles sabem que as agências de risco influenciam muito pouco a tomada de decisão dos investidores produtivos, desconfiamos que, por trás dessa tentativa de desqualificação da Rússia, Índia e China, encontra-se o medo de que o Brasil adote políticas de desenvolvimento idênticas às desses países. Porque, para crescer efetivamente, é necessário algo mais do que superávits nas transações correntes e melhoria dos títulos nos mercados de ações, os dois sucessos econômicos brasileiros citados por eles.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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