No mundo virtual

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | No mundo virtual, n. 146, 11 jun. 1999.

 

 

A cada dia, a pretexto da globalização e da revolução tecnológica, as elites mundiais e nacionais, os donos do dinheiro, das fábricas, das terras, do saber e da política, lá de fora e aqui de dentro, anunciam que a democracia tem que mudar.

A televisão, o computador e a Internet teriam acentuado o individualismo, reforçando a idéia de que tudo pode ser feito e decidido direta e individualmente por intermédio da informática. Ingressaríamos, assim, na democracia virtual, em que as opiniões, as consultas, as escolhas e as decisões viajariam pelas infovias, descartando as formas atualmente conhecidas de participação popular.

Teríamos uma participação limpa, sem o perigo de conflitos. As idéias, unicamente as idéias, fluiriam de um lado para o outro, conformando correntes de pensamento, cujos embates ocorreriam apenas nos sistemas de telecomunicação. Para nos vermos livres deles, bastaria desligar o computador. O mundo virtual nos livraria, assim, não só dos problemas reais, mas também dos virtuais, até as coisas melhorarem.

Convencidos disso, os estrategistas do Planalto decidiram não convocar o Congresso extraordinariamente em julho. Com os parlamentares em férias, as crises que sacodem a base do governo, assim como os movimentos oposicionistas, sumiriam. Ou, como disse ironicamente ACM, se o governo ficar sem notícias, talvez as coisas melhorem.

Esse é o mundo virtual dos donos do poder. Alhear-se da realidade e supor, em seu lugar, uma projeção de seu pensamento, um filme em que os problemas desaparecem. Como é deliciosa a virtualidade de tudo decidido via Internet e computador! E como é angustiante a realidade de um mundo em que mais de 80% da população, vegetando na pobreza e na miséria, não possui computador, nem tem acesso à Internet. Um mundo que, ignorante daquela delícia, poderá colocar tudo, inclusive a democracia, de ponta-cabeça.

Talvez por isso FHC não consiga entender porque sua popularidade continua despencando. Como podem pensar que ele possa fazer algo abominável, com sua história de luta contra a ditadura? Incapazes de responder a essa dúvida, seus assessores decidiram desplugá-lo do único canal que o ligava, mesmo imperfeitamente, à realidade. Por um mês, pelo menos, o presidente pensa ficar isolado em seu mundo virtual. A não ser que algum hacker, um desses piratas tecnológicos modernos, assalte o acesso à infovia do Planalto e coloque as tripas da realidade na tela do presidente.

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