No fundo do poço

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | No fundo do poço, n. 173, 18 dez. 1999.

 

 

No Brasil colônia, os funcionários do Estado absolutista português davam as ordens. Quem piasse ia preso, deportado, esquartejado ou sofria outras penalidades típicas da época. Acordada a independência, o Brasil tornou-se dependente direto da Inglaterra. Passaram a ditar as regras os emissários de sua rainha, nem sempre se importando com as aparências. Só os escravistas mantiveram sua autonomia e continuaram traficando à revelia da coroa britânica, já que os ingleses precisavam do café.

Apenas com a República houve um arremedo para fazer com que as aparências independentes fossem observadas. Floriano ameaçou receber a esquadra inglesa à bala, um arroto fanfarrão difícil de concretizar-se. Mas valeu e o homem ficou conhecido como o marechal de ferro. Depois, aproveitando-se da disputa entre as potências imperialistas pelos mercados mundiais, Vargas navegou com certa independência e arrancou concessões dos americanos para lutar contra o nazismo. O que não impediu os ianques de fazerem planos para ocupar o Nordeste caso os simpatizantes fascistas do governo brasileiro levassem o país para o lado de Hitler.

Após a guerra, o Brasil recaiu na dependência aos Estados Unidos e os representantes deste chutaram as aparências diversas vezes, como no golpe de 1945, dando ordens diretas sobre o que os brasileiros deveriam ou não fazer. Mas houve momentos de reação, como os de Juscelino, ao romper com o FMI, ou do ditador Geisel, ao assinar o acordo nuclear com a Alemanha. De qualquer modo, não se tinha notícia histórica de um funcionário de terceiro escalão ameaçar o país aqui dentro. Até mesmo os governos mais servis o teriam posto para fora com alarde, mais não seja para manter as aparências e demonstrar soberania, como Floriano.

O governo FHC, porém, chegou a tal ponto de sabujice que um Truman Packard da vida, simples especialista do Banco Mundial, durante um seminário sobre previdência social em Brasília, ameaçou que “o mercado internacional não vai tolerar mais atrasos” nas reformas previdenciárias do funcionalismo brasileiro. “O Brasil tem que pôr as contas em ordem”, ordenou enfático. José Cechin, secretário-executivo do Ministério da Previdência, ouviu tudo e concordou.

Pobre Brasil o nosso! Não pode ser recolonizado, porque para isso seria preciso impor um governador estrangeiro numa época em que a exploração é realizada por meios estritamente econômicos, através de empresas de diferentes nacionalidades. Mas é tratado como se colônia fosse, por qualquer funcionariozinho desatento às formalidades. E, no governo, não há quem tenha o mínimo de vergonha na cara para impor sequer as aparências.

Chegamos ao fundo do poço.

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