Nem esmola miúda

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Nem esmola miúda, n. 261, 08 set. 2001.

 

 

A obstinação de FHC em criar fatos políticos que revertam sua baixa popularidade não pode ser subestimada. O sociólogo-presidente reuniu uma razoável experiência na arte da prestidigitação e do ilusionismo, desde que implantou o Plano Real, e ainda é capaz de se lançar em ações que tirem proveito da credulidade popular e da inocência dos pobres, estes sempre prontos a acreditar em boas intenções, apesar das amarguras por que têm passado.

A decisão de estender aos consumidores de até 225 kW os bônus com que são pretensamente premiados os que reduziram seu consumo às metas estabelecidas pelo governo faz parte daquele tipo de ação. Comparados aos imensos prejuízos com que o governo teria que arcar se os apagões não fossem evitados pela participação decisiva da população, os bônus não passam de caraminguás, mas a publicidade oficial certamente procurará tirar o máximo de proveito dessa distribuição de esmolas.

Acontece que, como temos reafirmado aqui, o governo FHC ainda tem força e poder, mas já não tem a capacidade de efetivar suas decisões sem gerar conseqüências ainda mais perversas para a população e para si próprio. Nem
bem anunciou a extensão dos bônus e já foi obrigado a reconhecer que deve impor um tarifaço de 40% ao povo brasileiro.

Ou seja, o governo que admite estarem sobrando cerca de 125 milhões de reais de recursos, obtidos pelas empresas concessionárias com as sobretaxas cobradas aos consumidores que ultrapassaram as metas de racionamento, é o mesmo governo que se prepara para repassar para as tarifas aquilo que chama de “custos não-gerenciáveis” das empresas de energia.

Foram essas empresas que arrancaram a dolarização do preço do gás natural, ao adiar a construção de suas novas termelétricas até explodir a crise energética. Não satisfeitas, agora exigem que o mesmo princípio seja estendido às demais formas de geração de energia, sob a alegação de que a alta do dólar afeta todas as suas despesas. E o governo, incapaz de resistir a elas, apressa-se, pressuroso, a atendê-las, salgando as contas dos consumidores.

Da mesma forma que tem feito continuamente, o que anunciou devolver com uma mão, retirará multiplicado com a outra. Tornará ainda mais difícil a vida da maioria dos brasileiros, inclusive das indústrias que teoricamente deveriam produzir a preços mais competitivos para contribuir no esforço exportador. E terá muita dificuldade em fazer com que sua prestidigitação consiga enganar como antes. Até os incautos já desconfiam, mesmo das esmolas miúdas prometidas por FHC.

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