Negócios com a China

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Negócios com a China, n. 424, 20 nov. 2004.

 

 

O reconhecimento da China, pelo Brasil, como economia de mercado, está suscitando reações iradas, paradoxalmente, da direita empresarial e da esquerda nacionalista. Argumentam, por exemplo, que tal reconhecimento significará a venda, pelo Brasil, de mais carne de frango para a China, seguida da compra de bilhões em quinquilharias eletrônicas e bens de consumo.

A infantilidade do argumento pode ser creditada ao desconhecimento dos acordos para investimentos chineses em infra-estrutura e na implantação de indústrias no Brasil. Ou à suposição de que todas as indústrias existentes no Brasil são “brasileiras” e que é necessário defendê-las da concorrência chinesa. Na verdade, a maior parte do parque industrial brasileiro foi desnacionalizado. E a resistência principal à entrada dos chineses, no mercado brasileiro, parte justamente das multinacionais americanas, européias e japonesas.

Não tem fundamento a suposição de que dar à China o status de economia de mercado significa que empresas “brasileiras” atingidas por concorrência desleal chinesa só poderão provar dumping a partir dos preços do mercado interno chinês. Os chineses têm obtido ganho de causa nos tribunais internacionais contra a maioria das ações anti-dumping, principalmente norte-americanas, porque os produtos e preços internacionais comparativos, apresentados nessas ações, não são similares aos dos chineses. Em certo sentido, são os chineses que têm enfrentado concorrência desleal com ações anti-dumping sem prova.

É verdade que a China mantém sua moeda desvalorizada e a utiliza como instrumento de política industrial e de elevação da competitividade de seus produtos. No entanto, utilizar tal argumento para acusar a China de concorrência desleal é cair no engodo neoliberal sobre o papel do câmbio. Por que o Brasil também não utiliza o câmbio como instrumento de política industrial e ganho de competitividade? Por que estamos obrigados a seguir as receitas do FMI, ao invés de enfrentar os chineses com armas idênticas?

O Brasil pode aumentar a competitividade da maioria de seus produtos semi-manufaturados e manufaturados, empregando uma política cambial apropriada. Além disso, se pensamos sair da estagnação econômica combatendo os chineses com argumentos infantis made-in-USA, estaremos perdendo uma oportunidade histórica. Não aprenderemos como realizar o desenvolvimento na contra-corrente da recessão neoliberal. Nem aproveitaremos os excedentes de capitais, gerados pelos 24 anos de crescimento da China, para elevar nossas medíocres taxas de investimento. Só os tolos acham que, no mundo atual, basta reduzir o superávit primário para dar o salto no crescimento das forças produtivas internas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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