Navalha em quem?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Navalha em quem?, n. 551, 25 mai. 2007.

 

 

A Operação Navalha, desencadeada pela Polícia Federal contra as irregularidades cometidas por uma construtora nos processos de licitação de obras públicas, está tendo a capacidade de mostrar, ao mesmo tempo e com grande intensidade, as contradições que cercam as atividades desse órgão do Estado brasileiro.

Por um lado, do mesmo modo que em outras operações anteriores, a PF está colocando a nu algumas das mazelas do sistema político brasileiro. Primeiro, as relacionadas com as emendas parlamentares ao Orçamento da União, que permitem diferentes modalidades de corrupção. Depois, as relacionadas com o envolvimento de setores do judiciário, do legislativo e do executivo com meliantes de diferentes tipos. E, ainda, as manhas escusas empregadas por setores empresariais para orientar licitações, ganhar concorrências, receber pagamentos sem realizar as obras contratadas, e por aí afora.

Por outro lado, com a participação ativa e entusiástica da mídia, a PF parece estar inebriada com suas ações, talvez sem se aperceber de que essa cooperação com a imprensa está prestes a lhe colocar sobre o colo um novo caso “Escola de Base”. A situação envolvendo o ex-ministro de Minas e Energia merece reflexão.

Todos os órgãos de comunicação noticiaram que “a PF acusou o ministro de haver recebido 100 mil reais de propina”. No entanto, em nenhuma parte aparece o nome da autoridade policial que fez tal acusação. Além disso, o vídeo apresentando a suposta entrega de um “envelope contendo 100 mil reais” é uma peça surrealista. Ela não demonstra nem prova nada, embora seu áudio afirme que o dinheiro “foi entregue ao ministro”.

Como a polícia sabia que lá havia 100 mil reais? Foram agentes da PF que entregaram o envelope para a funcionária da Gautama, para pegar o ministro numa armadilha? Ou aquela funcionária, com anterioridade, forneceu a informação à PF? Como nada disso parece haver ocorrido, a notícia é pura suposição, com base numa conversa telefônica carregada de outras possibilidades.

Assim, mesmo desconfiando-se que o ministro possa estar envolvido no caso, a acusação e a “prova” apresentadas não têm consistência. Apesar disso, ganharam status de verdade incontestável na imprensa e levaram à sua demissão. Algumas das demais “provas” apresentadas pela PF, e amplificadas pela imprensa, em relação a outros acusados, possuem inconsistências do mesmo tipo. Nessas condições, a PF pode estar correndo o risco de dar razão aos que dizem que ela faz muito barulho por pouco ou por nada, sem apresentar provas consistentes para penalizar os que realmente cometem delinqüências de colarinho branco. A conferir.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

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