Não olhe para trás!

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Não olhe para trás!, n. 154, 07 ago. 1999.

 

 

A acreditar no noticiário, o governo acha que saiu muito bem do caminhonaço. Dias antes já sabia dos panfletos convocando a categoria para a manifestação, mas foi apanhado de surpresa. Só 10% dos caminhoneiros pararam espontaneamente, mas 60% pararam de um jeito ou de outro. FHC ameaçou colocar o Exército nas estradas, para garantir o ir-e-vir, mas teve que negociar para evitar o imponderável. O país correu o risco de ficar paralisado, mas o governo diz que foi bom, porque assim se deu conta das injustiças do Código de Trânsito, dos absurdos preços dos pedágios e da distorcida matriz de transportes, na qual 63% das cargas dependem das rodovias.

O besteirol emanado do Planalto chega ao ápice com a frase atribuída a FHC em reunião com seu ministro dos Transportes: “Não olhe para trás, olhe para a frente!” Não muito diferente do “esqueçam o que escrevi”, “o que passou, passou, bola pra frente”. Ou da pérola de Eliseu Padilha: “pensei que os panfletos não tinham importância”.

Num governo medianamente sério, de um país dependente quase exclusivamente do transporte rodoviário, um ministro que não dá atenção a uma manifestação programada de caminhoneiros e deixa a nação ter prejuízos superiores a R$ 100 milhões deveria ser demitido no ato. Mas esse governo não é sério. FHC fez a reforma ministerial de seus sonhos e não poderia desfazê-la em tão curto espaço de tempo. Pior: FHC não quer tirar lições do ocorrido e prefere enganar a si próprio sobre a situação do país.

Se olhasse para trás, poderia verificar que está se armando, em conseqüência de sua política de pauperização de camadas crescentes da população, não um caminhonaço, mas um populacho bem maior, sem panfletos nem avisos. ACM, que sentiu que não se pode mais andar tranqüilo pelas ruas, já está se preparando para evitá-lo ou, se for o caso, tornar-se referência como defensor dos pobres e miseráveis, através dos debates sobre o imposto contra a pobreza.

Mas FHC, do cume de sua arrogância, não acredita em nada disso. O povão não entrou no Palácio e sorriu junto com ele para saudar a seleção? Ele não está tomando providências para cumprir o acordo com os caminhoneiros? Além disso, seus assessores lhe dizem que os indicadores econômicos estão melhorando e que, logo, logo, o país vai sentir os efeitos dessa melhora e sua popularidade vai voltar. Como sempre, ele acredita estar no caminho certo, sempre olhando para a frente. Então, melhor mesmo não olhar para trás.

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