Não adianta chorar

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Não adianta chorar, n. 216, s/d.

 

 

FHC estava convencido de que as eleições não seriam federalizadas. Todas as análises lhe diziam que os “moderados” e o “PT cor-de-rosa” haviam vencido, e ele acreditou nessa fantasia. Para seu desgosto, porém, o presidente do PT e seu líder de bancada na Câmara Federal, tidos e havidos como “moderados” pela grande imprensa, vieram a público dizer que o PT vencera porque se identificara com a insatisfação popular contra o governo FHC.

Para completar, o próprio Lula, também exaltado na mídia como liderança do grupo “moderado”, deu uma entrevista ao Correio Brasiliense em que afirma, taxativamente: “Não faltou quem nos últimos dez dias tentasse descaracterizar nossas vitórias, dizer que quem ganhou foi o PT cor-de-rosa, foi o PT isso o PT aquilo. O PT continua com a sua bandeira vermelha e a sua estrela”. “Nossa vitória se deve a três fatores: primeiro, à competência administrativa que o PT tem demonstrado nas prefeituras e nos governos. Segundo… à oposição coerente e consistente que o PT tem feito ao governo Fernando Henrique Cardoso. Terceiro…ao simbolismo de ética que o PT representou nesse período”.

Fundamentando, acrescentou: “Não há como um candidato a prefeito, seja de uma cidade pequena, de uma capital, fazer uma campanha política falando de desemprego se não falar do problema do governo federal. Não há como falar de segurança pública e não falar do governo. Federalizar a campanha é quase que uma coisa normal, em função da temática que se está abordando. Os prefeitos podem prometer políticas de emprego, de segurança, mas a verdade é que essas coisas estão subordinadas à vontade da política nacional ou da estadual. (…). O povo precisa compreender que o problema da sua rua, do seu bairro, da sua cidade está intimamente ligado ao problema nacional”.

Assim, se os “moderados” do PT saíram vitoriosos nas eleições, a análise isenta teria que concluir que eles, junto com parcelas importantes da população, deslocaram-se para a esquerda, superaram a idéia inicial de que estas eleições seriam municipalizadas e se jogaram na disputa, identificando-se com o descontentamento nacional contra FHC. Nessas condições, seria ainda mais inevitável que houvesse um acirramento da federalização no segundo turno.

Esse acirramento obrigou FHC a sair da toca e atacar os candidatos petistas, acusando-os de prometer “soluções rápidas para o país”, fazendo “discursos demagógicos e retóricos”. No entanto, ainda como disse Lula na mesma entrevista, se há alguém “mais lembrado nas ruas desse país” e um presidente “tão xingado”, justamente por prometer soluções rápidas para o país nos cinco dedos da mão e fazer discursos que se comprovaram demagógicos, retóricos e empulhadores, esse alguém e esse presidente são FHC. Não adianta chorar.

Quanto mais avançar a campanha, mais federalizada o PT terá que fazê-la. E quem não a fizer, não se identificará com aquela lembrança e aquele xingamento.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *