Nada de social

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Nada de social, n. 196, 24 mai. 2000.

 

 

O presidente FHC, como sempre, tem razão. A insatisfação não é social. É política, eleitoral. Os fracassômanos, que já se aperceberam da derrota inevitável nas urnas, no desespero, lançam-se em ações desesperadas.

É verdade que existe uma guerra civil não declarada nos morros e periferias das grandes cidades brasileiras. Milhares de soldados, mulas e outras categorias de jovens, maduros e velhos, à falta de trabalho, vendem sua força de trabalho e suas vidas para o tráfico de drogas e o crime organizado e travam batalhas diárias contra os centuriões da ordem. Mas isso nada tem de social. Faz parte de alguma trama política ainda não identificada.

É verdade que existe, também, uma guerra civil não declarada nas zonas rurais. Centenas de milhares de camponeses vêm sendo expulsos de suas terras todos os anos, resultando em conflitos, assassinatos e massas de deserdados sem-terra, que buscam terra e trabalho e não os encontram. Não fosse o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, que canaliza as insatisfações para a conquista do reassentamento e da sobrevivência, mantendo a esperança, o bandoleirsmo rural que marcou uma certa época da história brasileira já teria retornado. Mas isso nada tem de social. Faz parte, como já disseram o presidente e outros tucanos emplumados, de um movimento político de tomada do poder pelo MST.

É verdade que os funcionários, professores e outras categorias profissionais não sabem o que é aumento salarial, quanto mais qualidade de serviços públicos, há muito tempo. Seu desespero está chegando ao ponto de se lançarem em movimentos grevistas, choques com a polícia e, o que é pior, atentados a autoridades. Mas isso nada tem de social. É o desespero político das corporações trabalhistas, que perderam seus privilégios e procuram desgastar o governo com ações provocativas.

É verdade que as populações dos morros do Rio são oprimidas, atacadas e assassinadas pelas falanges traficantes e pelas falanges policiais, e pouco faziam contra isso. Agora, porém, elas começam a revidar. Descem os morros para paralisar e depredar vias urbanas, carros e casas comerciais e enfrentar a polícia de choque. Mas isso nada tem de social. Deve ser algum plano político brizolista ou dos radicais petistas para desestabilizar os governos Garotinho e Conde e conquistar a prefeitura carioca.

O pior de tudo é que a esquerda também parece não enxergar nada de social nisso tudo e pouco faz para tornar-se referência para as insatisfações e conduzi-las a um embate organizado contra o governo. Sua política institucionalizou-se, mas esqueceu que as grandes massas do povo brasileiro vivem fora da institucionalidade. Quando os camponeses se cansarem da lentidão do MST, os morros descerem e  as periferias transbordarem sua insatisfações não-sociais, o que faremos?

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