Nada a ver?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Nada a ver?, n. 513, 19 ago. 2006.

 

 

Depois que a senadora Heloísa Helena declarou que programa estratégico nada tem ver com programa de propostas eleitorais, e adotou uma linha de campanha economicista, pergunto-me como ficam aqueles que romperam com o PT, por achar que esse partido rebaixou seu programa estratégico às ingerências de táticas eleitorais.

Por outro lado, embora sempre defendendo a necessidade de diferenciar o programa estratégico dos programas ou propostas táticas, sejam eleitorais ou referentes a outros aspectos conjunturais, não chego ao radicalismo revolucionário de achar que a estratégia nada tem a ver com a tática. Ambas andam entrelaçadas, embora muitas vezes defasadas, com a tática tendo que se subordinar à estratégia.

Tanto vitórias quanto derrotas táticas podem representar avanços estratégicos se favorecerem o acúmulo das forças populares e o desgaste da direita. Ou podem representar retrocessos estratégicos, se desgastarem as forças populares e favorecerem a acumulação de forças da direita. Tomemos o caso das táticas para conquistar o apoio estratégico das camadas pobres. Essa maioria da população brasileira tem servido, há muito, de massa de manobra, ou mesmo bucha de canhão, para as classes dominantes de cada época histórica.

Em 1989, com a tática de não ter medo de ser feliz, pela primeira vez na disputa presidencial, uma parte dessas camadas deixou de lado o preconceito que nutria a respeito de seus próprios integrantes, ainda por cima chamados de socialistas, e votou Lula-Presidente. Deslocou-se da hegemonia mantida sobre ela por aquelas classes. Em 1994 e 1998, mesmo essa parte voltou à antiga influência, elegendo FHC. Em 2002, já meio escaldada e em meio à divisão da burguesia, migrou novamente para a esperança petista.

Porém, o deslocamento mais consistente só veio a ocorrer durante o governo Lula, devido aos programas sociais executados pelo governo. Não fosse isso, não teria sobrado caco do governo e do PT, bombardeados quase um ano inteiro, pelos dois flancos, sob a acusação de corruptos e traidores. Esse deslocamento é um dos méritos do governo Lula, mesmo que se reconheça que ele não significou uma tomada de consciência daquelas camadas, nem a elevação de seu nível de organização e capacitação para participar ativamente da vida democrática e fazer valer seus interesses.

Só o fato de ter ocorrido tal deslocamento já representa uma importante vitória tática. Com ela, criam-se as condições mínimas para que esse grande setor social brasileiro tome consciência de seus interesses, se organize e participe da vida política, mudando a correlação de forças. O que certamente será perdido, se Lula for derrotado. Ainda mais, com a ajuda dos que pensam que tal derrota representará um avanço no caminho do socialismo. Tática e estratégia: nada a ver?

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *