Na encruzilhada

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WPO | ART | CON | Na encruzilhada; ago. 2001.

 

 

Nosso país chegou a uma encruzilhada. A estabilidade monetária treme em seus fundamentos. O câmbio torna-se uma âncora sem gancho, pela qual o real escorrega, enquanto o dólar decola. A solidez fiscal vira fumaça, diante do esgotamento da capacidade do povo continuar sendo tributado em cerca de 40% de sua renda, enquanto a dívida externa dá um salto de 50 bilhões de dólares e o pagamento de seu serviço  torna-se algo difícil de administrar, até mesmo para os capachos do FMI.

Os decantados fundamentos econômicos, que teriam sido conquistados através de virtuosas políticas macroeconômicas nos campos fiscal, monetário e cambial  –  contas fiscais ajustadas, inflação sob controle e forte influxo de investimentos diretos   –  aparecem cada vez mais como fundamentos frágeis, sustentados na privatização (quase 80% do patrimônio público alienado), na exploração dos trabalhadores (cuja renda caiu mais de 50% desde 95) e na corrupção generalizada.

Isso, sem considerar que fundamentos econômicos não cravados num sólido terreno social são apenas miragens. Num país com taxas de 10% a 20% de desempregados, onde a economia informal produz grande parte do PIB, a agricultura alimentar precisa ser complementada por importações, apesar da extensão dos solos e dos milhões de trabalhadores exigindo terra para plantar, o número de miseráveis oficiais é de um terço da população (50 milhões) e o de pobres é quase dois terços, falar em fundamentos econômicos sólidos não passa de piada de mau gosto.

Para complicar ainda mais, temos uma Constituição remendada, que se transformou num frankestein jurídico, cujo único objetivo consiste em eternizar os privilégios das grandes corporações empresariais, em especial, de seu setor financeiro.

Bem vistas as coisas, estamos retornando à situação que a ditadura militar colocara o país após seu milagre, mas com o povo em condições bem piores. Diante dessa encruzilhada, quase todas as forças oposicionistas trabalham a hipótese de que o atual quadro econômico, social e político brasileiro se sustente até 2002. Nas eleições será possível, então, sufragar o programa de políticas que aumentem os investimentos públicos e privados, estimulem o crescimento econômico, expandam os empregos e o mercado interno, erradiquem a miséria e a pobreza, distribuam a renda, controlem a inflação, equilibrem o câmbio, mantenham as contas fiscais ajustadas e baixem as taxas de juros, ingressando no caminho do desenvolvimento sustentado.

Ou seja, supõem que continuaremos diante da encruzilhada, mas não chegaremos a nos transformar numa Argentina. Nossa economia seria mais forte, mais complexa e com fundamentos sólidos, além da disposição do governo para apertar o garrote fiscal no pescoço do povão e gerar superávits pelo tempo necessário. No fundo, a mesma suposição que levou os argentinos a votar em de la Rua e os mesmo argumentos que conduziram o governo FHC a acreditar que São Pedro o salvaria da crise energética.

Porém, as crises argentina e brasileira, ambas associadas à desaceleração da economia norte-americana e à recessão japonesa, tendem a aprofundar-se a um ponto que os mais otimistas consideram péssimo. A brasileira também pode chegar à bancarrota e à moratória, tanto antes de FHC finalizar seu mandato, quanto depois. Em qualquer dessas hipóteses, com desdobramentos sociais e políticos graves e, certamente, antes que o novo governo implemente suas medidas para tirar o país da crise.

A reunião de FHC com os pesos pesados da economia teve justamente o objetivo de examinar tais hipóteses. O grande empresariado, apesar dos desmentidos, não acredita em anjos e não está disposto a correr riscos, pelo menos políticos. Ele estuda, seriamente, a hipótese de bancarrota do país (não a sua) e já começa a trabalhar o seu plano B, tendo em vista aproveitar esse cenário catastrófico no sentido de impedir que Lula e o PT ganhem as eleições, ou de arrancá-los do governo, caso consigam vencer.

Sem rebuços, a grande burguesia sinaliza, mais uma vez, que a democracia, mesmo de encenação, apenas é boa enquanto lhe é útil. Prepara-se para qualquer hipótese, no sentido de manter o poder em suas mãos, mesmo que para isso seja necessário quebrar contratos e a institucionalidade. Aproveitando-se de uma crise que ela própria gestou, ameaça liquidar o pouco de democracia que temos e colocar o povo brasileiro contra a parede. Terão as forças populares um plano B para enfrentar um cenário desse tipo?

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