Mr. Malan e o falso dilema

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Mr. Malan e o falso dilema, n. 159, 11 set. 1999.

 

 

Virou voz corrente, no governo e na mídia que o sustenta, que é falso o dilema desenvolvimento versus estabilização. Segundo mister Malan, em países que deram certo, desenvolvimento e estabilidade caminham juntos: o desenvolvimento tem que ser feito com estabilidade. Prometer um crescimento irresponsável, uma bolha, seria transformar-se em mercador de ilusões.

Um crescimento responsável, segundo mister Malan, seria um crescimento sustentável, sólido, que não ponha em risco a estabilidade da moeda e seja capaz de se manter no tempo e de enfrentar dificuldades conjunturais. Mas quem é mesmo que sugere um desenvolvimento contra a estabilização? O ex-ministro Clóvis Carvalho? A oposição? Ou esse falso dilema está sendo plantado pelo próprio governo, na linha de criar uma caricatura para melhor combatê-la?

É verdade que desenvolvimento versus estabilidade é um falso dilema. No entanto, se desenvolvimento tem que ser feito com estabilidade, a recíproca também é verdadeira: estabilidade tem que ser feita com desenvolvimento.

Nesse sentido, o conceito de crescimento sustentável de mister Malan teria que ter sua contraparte no conceito de estabilidade sustentável, isto é, aquela com moeda sólida, que não coloca em risco o crescimento e que é capaz de se manter no tempo e enfrentar dificuldades conjunturais.

Sob esse prisma, a estabilidade-Malan não passa de ficção. O Real nunca foi sólido, só artificialmente esteve valorizado, não foi capaz de se manter no tempo, não conseguiu enfrentar as dificuldades conjunturais e jamais caminhou junto com o desenvolvimento. Mais: não só colocou em risco o crescimento, como também destruiu os fundamentos de qualquer crescimento sólido a curto prazo.
O pecado de Clóvis Carvalho, defenestrado sem honra nem pompa, não foi chamar mister Malan de covarde. Foi, ao acreditar no novo Plano Plurianual ilusionista de FHC, obrigá-lo a reafirmar que os fundamentos econômicos de sua política não mudam. Com isso, destruiu as bases de qualquer ilusão no marketing daquele plano e confirmou que o objetivo deste é tornar mais eficiente o programa de domínio da economia brasileira pelas corporações multinacionais.

Mister Malan, porém, parece seguro de que pobres não podem fazer passeatas, nem têm carros de som ou acesso à mídia. O governo pode, então, continuar com seus planos, sem precisar de fazedores de bolhas ou tapeadores, na certeza de que marchas ou gritos de excluídos são simples movimentos partidários, sem perigo. Só faltou dizer que, na falta de pães, os pobres comam brioches.

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