Milagre prometido

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Milagre prometido, n. 175, 03 jan. 2000.

 

 

Do mesmo modo que no final de 1998 e de 1999, nos palácios de Brasília acredita-se que novas crises e desastres estão afastados, graças ao suporte do FMI. As previsões e promessas são de um 2000, no Brasil, de inflação baixa, juros cadentes, balança comercial superavitária, dívidas externa e interna pagas em dia e retomada do crescimento econômico.

Como em 99, a tábua de salvação ainda será o ajuste fiscal, reforçado com a reformas previdenciária, tributária e outras que os portfólios do FMI e do governo possam apresentar. E, se aquela previsão favorável se concretizar, FHC espera recuperar a popularidade, manter as camadas populares afundadas na miséria, mas conformadas com a sua sina, e refazer a unidade política conservadora que o tem sustentado. Nessas condições, o cenário que se apresenta é de continuidade do domínio das políticas facilitadoras da hegemonia das corporações transnacionais sobre a economia e a sociedade brasileiras, mesmo que sob uma nova ideologia, que substitua o neoliberalismo. A terceira via está ai para isso mesmo.

Entretanto, pode acontecer que as previsões e promessas de 1999 sobre o ano 2000 repitam o fiasco das previsões e promessas de 1998 sobre 1999. A economia tem razões que a própria razão desconhece, principalmente quando elas estão fincadas nos interesses e na disputa dos mercados pelas megacorporações. Assim, o câmbio pode permanecer flutuante, a moeda desvalorizada e os juros altos. Pode aumentar a febre para elevar tributos, tendo em vista os superávits orçamentários exigidos pelo FMI.

O risco inflacionário, a queda da produção, a quebra de empresas e o desemprego podem continuar presentes ou aumentar. Nessas condições, aumentam a insatisfação social e a instabilidade política, principalmente tendo-se em conta de que 2000 é um ensaio eleitoral para o ano 2002. A crise na aeronáutica é só uma amostra das turbulências em gestação.

Também existe a possibilidade de que nem tudo seja fiasco. Afinal, a economia brasileira está quase no fundo do poço, foi sucateado um volume considerável de forças produtivas, a intensa penetração das corporações transnacionais resultou numa brutal, mas eficiente, reestruturação produtiva e aparecem sinais de que essa nova economia pode lançar-se num rumo ascendente. Ou seja, a economia pode voltar a apresentar taxas de crescimento, embora isso não signifique redução sensível do desemprego, dos juros e dos tributos. Mas pode mostrar outros indicadores positivos, que servirão para a máquina da propaganda deliciar-se com verbas generosas e relançar o Brasil do melhor dos mundos, como em 1994. Nesse contexto, os dados podem embaralhar-se e o jogo social e político tornar-se mais complexo.

Diante dessas perspectivas, os reajustes estratégicos realizados pelos aliados do governo os deixam preparados para qualquer cenário. Na hipótese milagrosa, a santa aliança conservadora pode ser refeita de modo a isolar, dividir e derrotar a esquerda nas eleições municipais de 2000 e impedir que ela sirva de pólo de atração do centro nas eleições de 2002. Se o cenário otimista não passar de miragem no deserto e se configurar o pior, a aliança conservadora se desfaz, FHC deve ser abandonado à própria sorte em 2000 e aumentará a busca frenética de uma candidatura para bater a esquerda em 2002. Finalmente, se se apresentar o cenário intermediário, quem se preparou para o melhor e para o pior terá condições para manobrar com mais facilidade o meio termo.

A esquerda talvez não tenha se preparado para esses cenários. Sua tática de centro-esquerda, na hipótese do milagre e da ressurreição da aliança conservadora em 2000, com o provável deslocamento do centro para o regaço do governo, pode levá-la a aparecer como mendicante de uma aliança em que só ela quer casar. Do ponto de vista simbólico, deixará de ser uma perspectiva de futuro. Ao esquecer que ninguém, nem mesmo FHC, consegue mentir e enganar a todos eternamente, ela corre o risco de perder em 2000 e não ser referência para 2002.

Na eventualidade do cenário mais realista, de aprofundamento da crise, a tática de centro-esquerda tem seu sinal invertido ainda mais evidente. Isto é, ela busca a aquiescência do centro através de boas maneiras e rebaixamento de suas exigências, o que a coloca em princípio como cauda e não como cabeça. Do ponto de vista prático, pode até dar certo como aliança, mas certamente não dará certo como atendimento dos interesses que a esquerda pretende defender. Vai aguar suas vitórias em 2000 e torná-las pouco efetivas para 2002.

Não é errado que a esquerda tenha tática para aliar-se ao centro e dividir a direita. Isto é indispensável para derrotar a aliança conservadora. Mas para que dê certo, em especial num cenário de insatisfação social, a tática adequada é aquela que propicia à esquerda colocar-se nitidamente à frente da massa dos descontentes. Isto é, que a leve a ter visibilidade como movimento social e político com tal força de atração que, por si só, seja capaz de atrair o centro. O que não exclui o atendimento de interesses do centro no programa político. Se isto facilita, não decide. O que puxa o centro é o arrastão, o resto é complemento. O melhor para atrair o centro, nas condições brasileiras, é uma tática de esquerda.

A tática de subordinação da esquerda ao centro, tendo como meta obter o máximo de vitórias eleitorais em 2000, poderá complicar-se ainda mais na hipótese de uma radicalização das lutas populares. Embora isto não seja uma certeza, é uma possibilidade que pode levá-la a tornar-se bombeira para não desagradar aos aliados centristas. Aí, adeus 2002.

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