Me engana que eu gosto

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Me engana que eu gosto, n. 132, 05 mar. 1999.

 

 

Com exceção de Itamar Franco, os demais governadores compareceram à reunião com FHC e, pelo que diz a imprensa, deixaram-se seduzir por suas promessas de reconhecer as dívidas previdenciárias, revisar desvios da Lei Kandir e do Fundo de Estabilização, encaminhar a reforma tributária e ser generoso nos repasses da União.

Em troca de migalhas, os governadores devolveram a iniciativa a FHC. Para solucionar seus apuros fiscais e de caixa, contentaram-se com as válvulas ofertadas pelo presidente, em troca de seguirem o caminho do ajuste fiscal de José Ignácio, do Espírito Santo, que demitiu 21 mil servidores, reduziu os salários nominais dos funcionários e, há quatro meses, não os paga.

Tudo para comprimir as despesas, mantendo os gastos com o funcionalismo em menos de 60% das receitas líquidas. Pouco importa que os serviços sociais sejam aniquilados. O importante é ter saldo para pagar as dívidas com a União, para que esta, por sua vez, pague os juros da sua.

É verdade que os estados precisam reformar suas máquinas, cortar privilégios e desperdícios e aumentar a eficiência dos serviços públicos. Entretanto, o problema reside em que, mesmo que cortem no osso, isto pode não resolver a situação. A relação despesa/receita comporta duas variáveis, não duas constantes. Se a despesa cair e a receita também, a situação permanece a mesma. Ou piora, se a receita cair mais rapidamente do que a despesa.

As receitas, por mais que os governadores se esforcem, é um problema nacional. O cenário econômico mais otimista para 1999, pintado para o FMI, falava em queda de 1% do PIB, déficit nominal de 4,7%, taxa de juros de 21,6%, déficit em transações correntes de US$ 26 bilhões e reservas de US$ 33 bilhões. Ou seja, no cenário mais otimista, o Brasil pagaria os serviços da dívida, deixando os banqueiros tranqüilos, mas aumentaria a recessão, fazendo as receitas irem para o brejo.

Existia, porém, cenário mais realista. Havendo desvalorização de 9% do Real, previa uma queda de 4% do PIB, reservas cambiais de 30 bilhões, superávit primário só no caso de novos cortes de despesas e mais impostos e déficit nominal de 6,6%. Nele, as metas com o FMI não seriam cumpridas e os banqueiros viveriam intranqüilos com o risco de não receberem seus juros. O país afundaria na recessão e as receitas sumiriam no buraco.

Com a desvalorização, o cenário realista tornou-se otimista e o otimista virou sonho. A crença de que os juros cairiam desfez-se como fumaça. Agora, o novo presidente do BC (aquele que distingue especuladores honestos e desonestos) promete o impraticável: metas de inflação baixa com política monetária restritiva e queda de juros.

Mesmo com desvalorização, ajuste fiscal e poder aquisitivo comprimido, o governo manterá altas taxas de juros para conter a inflação. A dívida crescerá, forçando o governo a impor novos impostos e apertos fiscais para pagar os juros. A quebra de empresas aprofundar-se-á, o PIB real desmoronará e a arrecadação rolará pelo abismo. As promessas de FHC aos governadores desmancharão como bolhas de sabão.

Será que só Itamar sabia disso? Ou os governadores que foram a Brasília são daqueles que gostam de ser enganados e ainda dizem “maravilha!”?

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