Mais vale comprar do que vender?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Mais vale comprar do que vender?, n. 178, s/d.

 

 

O quadro político continua alimentado por uma onda de otimismo governamental. Os fundamentos econômicos estariam sólidos (em meados de 1998, a arenga era a mesma), a popularidade presidencial em alta (um por cento melhor, segundo os mais moderados), prioridade para o social (desastres e alegrias, de acordo com Pimenta da Veiga) e pazes seladas entre FHC e ACM (vão se xingar pelo telefone). Acima de tudo, FHC teria decidido “sujar os sapatos na lama” (onde vive o povão).

O tucanato delira, mas o baixo clero do Congresso, mais realista, exige pagamento à vista para votar os projetos e reformas de interesse do governo. E o príncipe não tem opções menos medíocres para substituir Élcio Álvares no ministério da defesa, embora Quintão tenha como vantagem bem mais horas de vôo nos jatinhos da FAB.

Assim, apesar da lenga-lenga de prioridade social, para aprovar o projeto que o deixa de mãos livres para fazer o que bem entender com 40 bilhões de Reais do Orçamento da União, o Planalto viu-se obrigado a liberar um bocado de verbas para os aliados (300 milhões de Reais, pelos cálculos mais modestos). Sob a imposição estratégica de que, às vezes, mais vale comprar os aliados indecisos do que perdê-los, para evitar derrotas, FHC vê-se constrangido a fazer abertamente o jogo fisiológico que antes era encoberto e mistificado através de inúmeros artifícios.

Além disso, não é possível esconder que a dinheirama está sendo subtraída justamente das áreas sociais e redirecionada para o pagamento dos credores internacionais e nacionais e para apaziguar insatisfações incontornáveis, como as das forças armadas. Com tudo isso, já não sobra quase ilusão de que o governo FHC esta aí para prejudicar a pobreza, vender o país, beneficiar os muito ricos, liquidar os direitos trabalhistas e imputar mais deveres ao povo.

Assim, mesmo que a economia norte-americana não espirre juros mais altos, quebrando outra vez os fundamentos da economia bruzundanga; mesmo que a popularidade presidencial não vá mais fundo do que chegou; mesmo que as calamidades naturais dêem alguma pausa; mesmo que ACM só fale impropérios pelo telefone; e mesmo que nenhum outro ministro se meta em novas trapalhadas, o otimismo palaciano não passará de marketing. Pelo simples e bom motivo de que tudo que o governo continua a fazer só tem um pagador para todas as contas: o povão. E este já está nos limites de suas forças para suportar mais essa mão de gato, embora ainda não tenha demonstrado a disposição dos equatorianos.

Assim, se a idéia de andar na lama for para valer, talvez FHC descubra que a compra de votos no Congresso, para impor novos sacrifícios aos brasileiros, pode sujar bem mais do que apenas seus sapatos. Mais valeria perder do que comprar.

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