Mais uma vez, viva o crescimento

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Mais uma vez, viva o crescimento, n. 432, 22 jan. 2005.

 

 

Não faz muito tempo, um leitor reclamou que eu saudara o crescimento anunciado pelo governo e pela imprensa. Creio que não reparou em algumas ressalvas importantes, mas isso não vem ao caso. O que interessa é a idéia expressa por ele, de que não adianta nada de crescimento, se a distribuição da renda continua iníqua, desigual e injusta.

Se formos conseqüentes, por esse raciocínio deveremos saudar não o crescimento, mas a recessão e a estagnação econômicas. A complicação reside em que, além de termos a continuidade da desigual distribuição da renda, esses fenômenos econômicos jogam fora do mercado de trabalho uma massa considerável de trabalhadores, que passa a não ter renda alguma. Assim, prefiro supor que é melhor ter crescimento, mesmo com distribuição desigual, do que recessão e estagnação.

Mas há um outro motivo para saudar o crescimento. Apesar de todo aumento da produtividade e da utilização de novas tecnologias, esse crescimento ainda gera algum emprego no chão das fábricas. Ou seja, recria algo que muitos se acostumaram a dizer que desapareceu, a classe dos trabalhadores assalariados. Aumenta, portanto, a força social dos operários fabris, dos assalariados rurais, dos empregados dos serviços e das demais camadas populares.

Recria, portanto, as condições para que os trabalhadores voltem a se organizar e lutar pela distribuição menos iníqua, desigual e injusta da renda. Ou, num patamar de consciência mais elevado, que só essa luta pode gerar, pela distribuição da renda segundo o valor do trabalho realizado. Quanto mais amplo e mais diversificado for o crescimento, quanto mais firme e sustentado ele for, mais assalariados engrossarão as fileiras de sua classe e maiores condições de luta terão.

Nessas condições, a questão do crescimento não é algo que interessa apenas ao governo e aos empresários. Interessa, e muito, aos trabalhadores, mesmo que seja por razões diversas e, em alguns casos, até mesmo antagônicas. Ficar torcendo o nariz para o crescimento porque ele não traz, nas condições do capitalismo, uma distribuição justa da renda, talvez não seja o melhor caminho para quem quer mudar o mundo.

Por tudo isso, mais uma vez, viva o crescimento! Só é pena que os fundamentos em que ele se sustenta ainda sejam muito fracos diante de uma possível desordem internacional, tão típica do próprio capitalismo e tão propensa na atualidade pelo desarranjo da economia norte-americana.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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