Lula não é FHC

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Lula não é FHC, n. 285, 02 mar. 2002.

 

 

Apesar da movimentação generalizada das lideranças políticas, o quadro eleitoral permanece confuso.

Na aliança governista, tudo aponta para a definição de dois candidatos, Serra e Roseana (ou vice-versa, tanto faz), que se digladiam para conquistar o apoio da ala governista e da sigla do PMDB, assim como do PPB. Porém, dependendo do andar da campanha, não está descartada a possibilidade de recomposição da aliança, já que nem o PSDB, nem o PFL, têm tendências suicidas.

No meio do campo da disputa, Ciro e Garotinho continuam cumprindo bem seu fado de dividir a oposição popular. É bem verdade que Ciro conseguiu arrancar o PTB da base governista. O mais importante, porém, é que ele, tanto quanto Garotinho, frustaram a estratégia petista de construir uma aliança de centro-esquerda, ao retirar o PSB, PDT e PPS de uma possível coligação com o PT no primeiro turno.

Nessas condições, não deixa de ser fascinante que o PT se alie ao que talvez fosse sua última opção no arco de centro-esquerda, o PL. E que venha a ter como candidato a vice o senador José Alencar (ex-PMDB), um empresário bem sucedido do setor têxtil. É evidente que, do ponto de vista simbólico, essa aliança pode significar também o apoio de parte considerável do PMDB e, provavelmente, do governador Itamar Franco. O que, em termos eleitorais, não deve ser desprezado.

Essa estratégia da direção petista tem suscitado observações críticas dentro e fora do PT. No entanto, não devemos nos esquecer que Deus escreve certo por linhas tortas. Lula tem dito estar convencido de que sem essa aliança o PT perderá a chance de vencer, e que ele só sairá candidato pela quarta vez se for para vencer. Diante disso, os críticos das negociações em curso talvez devessem dar um crédito de confiança à principal liderança nacional petista.

Primeiro, porque Lula não é FHC. Enquanto este apenas deu seguimento à tradicional submissão de setores da intelectualidade às oligarquias no poder, Lula representa a classe trabalhadora, e este será o símbolo principal de sua possível eleição, criando uma conjuntura completamente nova no cenário nacional. Segundo, porque o PL não é o PFL, nem o senador José Alencar é Marco Maciel.

Em tais condições, Lula pode ter razão e conquistar os votos do povão para derrotar os candidatos de FHC, tanto os explícitos, quanto os encobertos. A boa política, nesse caso, recomenda aos críticos que, dado seu recado, se engajem com toda força na campanha, contribuindo decididamente para a vitória do candidato popular. O contrário, seria criar marolas inconsistentes que, embora minoritárias, apenas serviriam para responsabilizá-los por um possível insucesso.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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