Lula e Brizola

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Lula e Brizola; 24 jun. 1998.

 

 

O governo resolveu explorar, como um dos componentes de sua estratégia, as supostas ou reais divergências entre Lula e Brizola. Pretende não só mostrar que Brizola é um nacionalista xenófobo e ultrapassado, como também seria incapaz de subordinar-se às diretivas unificadas da frente de esquerda. Sua posição pela anulação da venda da Vale do Rio Doce, e contra as privatizações em geral, seria um exemplo revelador.

Em outras palavras, pretende transformar Lula num moderado internacionalista demonizar Brizola. Alguns próceres da esquerda engoliram a isca e criticaram publicamente o velho engenheiro, alimentando a estratégia governamental.

Esta não deixa de ter um toque de inteligência. Exploraria aspectos secundários das divergências entre Lula e Brizola, criaria cizânia na aliança dos dois e alimentaria o medo de ilegalidades que a esquerda cometeria ao chegar ao governo. De quebra, o mais importante, arrefeceria a onda contra a venda da Telebrás e tiraria as privatizações da pauta da campanha, como desejavam setores da própria esquerda.

Seu problema, porém, está na teimosa realidade do país. Primeiro, a opinião pública está acordando rapidamente da ilusão das fictícias delícias da estabilização canhestra e inconsistente de FHC. Segundo, também está despertando das miragens privatistas, que prometiam melhorar os serviços e pagar a dívida pública com a venda do patrimônio nacional. A oposição ao governo cresce por todos os lados, tanto pelos bolsos e barrigas vazias, quanto pela sensação de que o país está sendo vendido a preço de nada e para nada.

Isto também é verdade para boa parte daquela esquerda que havia se deixado levar pela campanha privatista do governo e se opunha a que o tema constasse do programa de governo de Lula. O candidato a vice somente vocalizou o que já está na cabeça de mais da metade da população brasileira. A modulação dele, assim como o acerto unificador em torno das auditorias sobre as privatizações, podem não ter sido o  mais adequado para enfrentar o problema. Mas o tema entrou na pauta, e com força. O resto é o resto.

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