Linha de ataque

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Linha de ataque, n. 297, 25 mai. 2002.

 

 

A candidatura Lula já se tornou um fato político. A grande imprensa não pode ignorá-la. No entanto, quem quer que leia uma página com notícias a respeito de qualquer viagem, aparição pública ou entrevista do “pré-candidato do PT”, será brindado, inevitavelmente, com comentários e informações que se contrapõem às propostas e observações do líder petista.

Elas variam de jornal para jornal. Porém, reprisam sempre as idéias de que “os investidores têm medo de Lula”, de que o PT “não está realmente comprometido com a estabilidade” e de que Lula “ainda tem que dissipar muitas dúvidas e afinar o discurso para torná-lo coerente”. Cada vez mais, aparece a estapafúrdia idéia de que a esquerda é “responsável pelo que aconteceu na Argentina”. E, sempre que possível, saem informações sobre supostas irregularidades nas administrações petistas.

A página 8 do primeiro caderno de “O Globo”, do dia 21/05, é um bom exemplo. Nela se encontra um resumo da entrevista de Lula à CBN. Ao lado, porém, há um box Opinião, com o título “Insolúvel”, afirmando serem “objetivos conflitantes repor a perda do poder aquisitivo do funcionalismo público, baixar a taxa de juros, impulsionar a economia e conter a inflação entre 1% e 2%. Essa equação é insolúvel. A conta não fecha”. Caberia perguntar: não fecha para quem?

Em outro box, sob o título “Reajuste esbarra no Orçamento”, o jornal tenta reforçar a tese acima, através de “um funcionário do Ministério do Planejamento”, que diz ser “inviável” repor aquelas perdas porque “cada ponto percentual de reajuste significa R$ 709 milhões”. Em outra matéria, sobre a viagem de Lula a Santa Catarina, o título é “Petista defende coordenador de programa”, já que Lula se viu obrigado a responder às denúncias de irregularidades na licitação de cestas básicas em Ribeirão Preto. Para completar, mais abaixo encontra-se um texto sobre artigo publicado na “The Economist”, de Londres, no qual a revista “diz que investidores temem o PT” e que “Lula e o PT ainda têm muitas dúvidas a esclarecer”.

Qual é o problema para esse tipo de gente e investidor que considera “inviável” aumentar o poder aquisitivo e reduzir a taxa de juros, para ampliar o mercado de consumo, impulsionar a economia e manter baixa e sob controle a inflação? O problema é que essa conta só “fecha” se houver a participação estratégica do Estado na economia, com controle firme sobre as transações financeiras, prejudicando alguns interesses poderosos. Os esclarecimentos e a coerência exigidos referem-se, pois, à manutenção da total liberdade para a especulação financeira. A mesma permitida por Cavalo e Malan. Na Argentina sabe-se o que aconteceu. Aqui, trata-se de evitar o desastre, fazendo justamente o oposto do que querem esses senhores.

Por ora, eles apenas estão fazendo chantagem para levar Lula e o PT a renegarem sua política de implantar um novo modelo econômico. Se não conseguirem, suas linhas de ataque vão fazer as forças populares sentirem saudades dos ataques sofridos em 1989.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *