Limites e desafios

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Limites e desafios, n. 322, 24 nov. 2002.

 

 

A vitória eleitoral de Lula e do PT não representaram nenhuma revolução política e/ou social. Foi uma vitória política, mas ocorrida no contexto de um sistema social capitalista. Mais, num sistema em que as grandes corporações empresariais possuem a hegemonia econômica. E no qual a ideologia neoliberal ainda é dominante. Nesse sentido, as forças populares devem ter plena consciência dos limites que as cercam.

Por outro lado, essa vitória foi uma revolução cultural. Pela primeira vez na história das crises de projeto do capitalismo brasileiro, formou-se uma aliança ampla, em que não apenas setores consideráveis das classes médias, mas da própria burguesia, colocaram-se sob a liderança explícita de um líder e de um partido de trabalhadores. O que isso representa, quanto ao futuro, precisa ser adequadamente mensurado, de modo que as expectativas e aspirações de nosso povo e país não sejam frustradas. Nesse sentido, as forças populares devem ter plena consciência dos grandes desafios com que se defrontam.

Ou seja, por um lado, precisarão exercitar toda sua capacidade tática para evitar confrontos prematuros. Partindo da correlação de forças reais, precisarão avançar com cautela e acumular forças. Por outro, não podem perder de vista as expectativas de mudanças, depositadas nas urnas. Nem podem esquecer que tais mudanças, embora algumas tenham o mesmo título da lista do governo que finda, têm um conteúdo diametralmente diferente.

As grandes questões do povo brasileiro – as questões nacional, democrática, social e econômica – não poderão ser tratadas do modo como são enfrentadas pelo governo FHC. Elas exigem políticas diametralmente opostas. E foi desejando tais mudanças que até mesmo parcelas do empresariado votaram em Lula. Não é possível continuar permitindo que a economia brasileira seja desnacionalizada. Ou que a democracia se restrinja a uma encenação. Ou, ainda, que a pobreza e a miséria continuem se alastrando. E que o modelo econômico permaneça concentrador de patrimônio e renda.

Introduzir mudanças progressivas nesse sistema neoliberal, derrotado politicamente, mas não econômica ou mesmo ideologicamente, constitui a grande arte a que estarão desafiados o governo Lula e as forças populares que o apóiam. Nesse sentido, o programa Fome Zero é instrumento fundamental para congregar grandes forças em torno da superação de uma das vergonhas nacionais. E, paralelamente, para construir um modelo econômico alternativo ao modelo neoliberal dominante.

Sem a construção desse modelo alternativo, democrático e popular, que tenha como base as grandes parcelas populares atualmente marginalizadas da vida econômica e social do país, dificilmente se conseguirá um crescimento que beneficie a maioria e, ainda mais, que resgate a força e a dignidade dos trabalhadores brasileiros.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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