Kamikases arrependidos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Kamikases arrependidos, n. 315, 28 set. 2002.

 

 

A brusca mudança de orientação da campanha oficial, voltando suas baterias e seu jogo bruto e baixo contra o candidato popular, parecia desmentir nossa opinião anterior de que as demais candidaturas à presidência teriam poucas chances de voltar-se totalmente contra Lula a curto prazo.

Centrados no suposto despreparo do candidato popular e do PT para governar o país, os ataques da campanha serrista foram subsidiados por novo surto terrorista do mercado e por matérias de várias revistas semanais, sendo ainda complementados por ataques partidos das campanhas de Ciro e Garotinho. E resvalaram rapidamente para o tipo de baixaria que Serra acreditava haver desconstruído a candidatura Ciro. Com dois ou três torpedos diretos, o candidato oficial esperava forçar a queda de Lula e abrir caminho para ir ao segundo turno.

No entanto, menos de uma semana após a mudança de orientação e das baixarias praticadas, a campanha Serra deu-se conta de que a rejeição de seu candidato crescera e de que Lula não só não caíra, como parecia haver subido nas pesquisas eleitorais. Segundo sugeriram alguns analistas mais argutos, a aliança PSDB-PMDB estava dando tiros no próprio pé e indo para o suicídio. Agia como os kamikases, aqueles famosos pilotos japoneses da Segunda Guerra Mundial, que atiravam seus aviões contra os navios de guerra inimigos, mas nem sempre afundavam junto com eles.

Assim, é como kamikases arrependidos, tentando sair do mergulho fatal com medo de estatelar-se, que Serra e seus assessores buscam desesperadamente voltar atrás e recompor sua estratégia e suas forças, há 15 dias das eleições. E numa condição em que sua manobra desastrada propiciou não só certa recuperação de Ciro, mas uma subida consistente de Garotinho, ambos ameaçando novamente a posição do candidato do governo no segundo lugar da disputa.

Desse modo, confirma-se a suposição de que o problema de Serra consiste em não deixar desguarnecidos seus flancos para os ataques de Ciro e Garotinho. E de que o destes dois está em que, ao voltar-se contra Lula, junto com Serra, deixando de lado os ataques ao governo e a seu candidato, podem perder a máscara de oposicionistas e mudancistas. Além disso, se os três atacarem Lula com as baixarias que têm usado entre si, vão atingir os sentimentos de oposição e mudança da esmagadora maioria do eleitorado e suicidar-se, como os kamikases.

Nessas condições, o problema de Lula, para vencer no primeiro turno, reduziu-se a criar uma onda de mobilização popular pelas mudanças. A iniciativa está, então, com o PT.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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