Jogo de cena

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Jogo de cena, n. 209, s/d.

 

 

Até o coordenador da FIPE declara que o governo faz “jogo de cena”, ao ameaçar com o aumento das importações de alimentos e produtos de higiene, a pretexto de conter as altas de preços e a inflação. É lógico que isso não impede esse mesmo governo de proteger os investimentos estrangeiros em termelétricas com a vinculação das tarifas às mudanças cambiais, uma ferramenta potencializadora de lucros para as usinas e de tarifas mais altas para os consumidores, pressionando a inflação. Aliás, o mesmo que vem ocorrendo com todas as tarifas dos serviços públicos privatizados, independentemente dos “jogos de cena” governamentais ameaçando enquadrar as concessionárias.

“Jogo de cena” é também o que o governo federal pratica ao ameaçar cortes nas obras, sejam as regulares, sejam as irregulares. Às vésperas das eleições, e correndo contra a impopularidade presidencial, o governo abriu as torneiras pelo menos há três meses, liberando verbas para os municípios de seus aliados políticos e fazendo com que o saldo das contas primárias tenha caído abaixo do compromisso com o FMI. É provável que os fiscais deste também façam algum “jogo de cena”, exigindo o estrito cumprimento das metas acordadas, mas nada que impeça o governo de dar recursos públicos para obter bons resultados eleitorais.

O governo FHC faz “jogo de cena” com tudo, com os números da economia, os indicadores de qualidade de vida, os planos de segurança pública, os compromissos sociais, o tratamento das leis, os assuntos internacionais e tudo o mais que diz respeito às suas relações com a sociedade. Mas, sem dúvida, ficou extremamente nervoso com o plebiscito da dívida externa, sendo incapaz de fazer o “jogo de cena” do olímpico desprezo, com o qual sempre procura tratar tudo que considera “baboseira” e “bobagens” de “neobobos”. O nervosismo e a persistência com que o ministro Malan tem saído de seu costumeiro mutismo para atacar a validade e a oportunidade do plebiscito podem apontar pelo menos para três coisas, relacionadas com os dados que o governo domina: ou a economia brasileira está muito mais instável do que os porta-vozes oficiais e oficiosos procuram fazer crer; ou a perspectiva de uma derrota eleitoral dos candidatos governistas é muito maior do que se pensa; ou o ministro está se credenciando junto aos setores dominantes para ser o candidato deles em 2002, qualquer que seja o resultado de 2000.

Nos dois primeiros casos, uma ação política massiva como o plebiscito pode fazer desandar não só os “jogos de cena”, como colocar a nu a fragilidade da economia e da força política governamental. No terceiro caso, o ministro assume o risco cartorial típico do capitalismo nativo: se o plebiscito for pífio, ele sai reforçado como uma alternativa forte do conservadorismo; se o plebiscito mostrar força, ele pelo menos tem garantido o emprego em Washington. Ou seja, sem nada a perder, ele faz o “jogo de cena” supremo.

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