Jogando uns contra os outros

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Jogando uns contra os outros, n. 176, s/d.

 

 

O ano 2000 começou com fortes emoções. O palco armado para FHC no Forte Copacabana desabou, por culpa do vento leste e das vaias, e o dilúvio desabou sobre o sudeste, só para mostrar como o governo (não) se previne. O que não impediu FHC de visitar as regiões atingidas e prometer esmolas para atender as populações flageladas.

Aliás, foi com isso que FHC inaugurou nova política. Tomando como pressuposto que os fundamentos da economia estão estáveis e que o país entra em novo ciclo de desenvolvimento (acredite quem quiser), o governo determinou prioridade para as questões sociais. Segundo o ministro Pimenta da Veiga, o presidente viajará pelo Brasil para estar presente nas desgraças e alegrias. Como não há emprego, educação, saúde e moradia a oferecer, FHC substituirá as carpideiras sempre que for preciso e, certamente, estará nos reveillons, carnavais e festas, prometendo não se meter nas campanhas municipais. Será?

Ora, o que está em jogo é justamente a dificuldade do bloco no poder de apresentar alternativas para derrotar a esquerda em 2000, com vistas a 2002. A queda de popularidade de FHC e a inexorável piora das condições sociais da população, agravadas pela incúria governamental na prevenção das calamidades naturais (o dinheiro para pagar aos credores internacionais é imexível e, com isso, além das enchentes, até a meningite e a febre amarela retornaram), incapacitam cada vez mais o governo de evitar que as eleições de 2000 se transformem numa prévia plebiscitária de 2002.

Como resultado, as alas do governo digladiam-se para manter seus nacos de poder. FHC e o PSDB, sob a influência da terceira via, voltam-se para o social, torcendo por desgraças que possam carpir, enquanto dão estocadas no aliado PFL democrata-cristão, agora voltado para a luta contra a pobreza e para viabilizar ACM ou Roseana Sarney como presidenciáveis. O PMDB, já sem Itamar, opera para aumentar a cunha entre PSDB e PFL, dividir o PDT, atraindo Garotinho como outro presidencial e, sem abandonar as tetas do governo, realizar uma campanha municipal oposicionista. O PPS e Ciro Gomes, por seu turno, como o pavão misterioso, desapareceram ao perderem a condição de alternativa única dos grupos dominantes para, fingindo ser o que não são, tentar derrotar a esquerda em 2002.

Se levarmos em conta que o propósito da estratégia de descobrir os interesses conflitantes do inimigo e jogar uma ala contra a outra consiste em enfraquecê-lo para ter chances de vitória, o bloco no poder está praticando entre si o que pretende fazer com a oposição. O problema é saber se esta consegue sair-se melhor.

 

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