Inverter o enfoque

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Inverter o enfoque, n. 257, 11 ago. 2001.

 

 

Defendemos, no comentário anterior, que o Brasil precisa realmente de uma política de estímulo às exportações que, por um lado, melhore a balança comercial e, por outro, rompa com o monopólio exportador atual, diversifique
a produção, agregue valor aos produtos, generalize o crescimento econômico e reforce o mercado interno. Se não cumprir essas tarefas, qualquer política exportadora, por mais “nova” que pareça, estará fadada a cumprir o mesmo
destino fatídico das anteriores: beneficiar apenas a um pequeno grupo econômico privilegiado.

Isso significa que devemos deixar de lado as exportações da soja, carne, sucos, café, aves, aço e outras commodities? Não. Significa apenas que, em relação a estes produtos, será necessário ter uma política controlada, de
modo a evitar que o contribuinte pague a conta de commodities em baixa no mercado internacional, para obter moedas fortes, enquanto os grupos exportadores privatizam os lucros.

Significa, sobretudo, que é preciso aproveitar as oportunidades do mercado internacional para estimular os segmentos produtores de bens de uso corrente, onde o Brasil possui uma experiência tradicional, como vestuário, alimentos industrializados e orgânicos, mobiliário, plásticos e outros, marginalizados pelas corporações transnacionais e pela política neoliberal, e com pouca ou nenhuma participação atual na pauta de exportações.

Esses segmentos estão pulverizados por milhões de micro e pequenas empresas do setor informal, clandestino ou popular da economia. Apesar de todos os processos de crescente monopolização da economia, que tendem a destruí-los, eles produzem uma considerável parte do PIB brasileiro e suprem, com produtos de baixo preço, parcelas importantes da população de baixa renda. Se estimulados verdadeiramente, tanto com créditos, quanto com assistência técnica e gerencial, eles podem elevar rapidamente a produção dos bens capazes de disputar o mercado internacional, gerar empregos, ampliar o mercado interno e criar um novo processo de crescimento econômico.

Porém, estimular tais setores significa mudar totalmente os parâmetros com os quais trabalha, por exemplo o BNDES, que facilita tudo para as grandes corporações (que teoricamente iriam trazer dinheiro do exterior para investir no Brasil, mas só investem com o dinheiro do setor público brasileiro, sem arriscar nada do seu), mas coloca mil obstáculos para emprestar a qualquer pequena empresa do setor formal, quanto mais do informal.

Em outras palavras, incentivar as exportações dos setores que realmente podem contribuir para alavancar a economia nacional vai muito além de uma política de estímulo às exportações. Exige, preliminarmente, uma completa inversão de enfoque em relação à política global de desenvolvimento do país, da qual as exportações e importações são conseqüência, embora importante.

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