Inflexões estratégicas

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WPO | ART | CON | Inflexões estratégicas; out. 2001.

 

 

Às vezes o Brasil, ou pelo menos suas elites dirigentes, parecem desconhecer o que se passa a sua volta. É verdade que, aqui, o terrorismo, incluindo as ameaças do antraz, ainda não atravessou os limites dos boatos e temores espalhados pelo pânico norte-americano. Mas as ondas do declínio econômico dos países do primeiro mundo, que já vinham tornando-se visíveis mesmo antes dos atentados de 11 de setembro, estão batendo forte em nossas praias, arrastando empresas de turismo para o mar da falência, adiando investimentos, e tornando cada vez mais difíceis as condições para o desenvolvimento do comercio externo brasileiro.

As metas exportadoras do governo FHC, em especial, estabelecidas como condição de vida ou morte da própria nação para obter saldos comerciais com que pagar os compromissos com os credores internacionais, tornam-se cada vez mais distantes e possivelmente, inalcançáveis. A recessão, que toma vulto nos principais paises do primeiro mundo, erige-se como um muro quase intransponível ao aumento das exportações e a melhoria do saldo comercial que tal aumento poderia propiciar.

Apesar disso, o que realmente interessa hoje na política brasileira é descobrir um candidato oficialista que seja não só capaz de bater Lula mais uma vez, mas principalmente que seja também suficientemente flexível para aparecer como oposição ao próprio governo a que pertence e apóia de fato. Só o ministro Pedro Malan parece não haver entendido a situação de completo desprestigio do governo e continua defendendo o indefensável. Seu quase bate-boca com o ministro Serra e os lideres do PSDB no Congresso é bem uma demonstração da difícil operação que as forcas oficialistas começam a praticar como estratégia de campanha.

Tanto Serra, quanto Tasso, Roseana, Ciro Gomes e quem mais possa disputar o cetro de candidato da continuidade, operam cada vez mais no sentido de travestir-se de oposição ao modelo econômico e social implantado durante o reinado de FHC, a exemplo do que já fez Tasso explicitamente. Mas não só isso. Eles também se esforçam para que seu programa de governo, seus slogans e seus projetos se pareçam ao máximo com o programa, os slogans e os projetos dos candidatos `a esquerda, principalmente de Lula.

Diante dessa inflexão estratégica das forcas governistas, temos pelo menos duas variantes no que respeita a Lula e às forças que o apóiam. Ou eles aceitam o jogo da situação, como alias ocorreu em grande parte nas eleições de 1994 e 1998, ou eles infletem ainda mais para a esquerda, tendo em vista a necessidade de diferenciar-se dos candidatos da continuidade camuflada e tornar-se um referencial de grande visibilidade para a maior parte do eleitorado, que rejeita o governo FHC.

Ambas as operações são de alto risco. No primeiro caso, subordinando-se à pauta governista, quase certamente serão confundidos com os demais postulantes, tendo que desdobrar-se para demonstrar que a postura histórica de seu candidato e dos partidos que o apóiam são o aval mais seguro de realização dos compromissos de campanha. No segundo caso, de maior inflexão para a esquerda, ver-se-ão obrigados a cuidados redobrados para não disseminar medos e conquistar as forcas intermediárias – classes medias e setores do empresariado – muito sensíveis contra promessas inviáveis e rupturas do status quo.

É lógico que tudo isso ainda depende, em grande medida, da evolução da difícil situação mundial e sul-americana. A proposta de oficialização conjunta Brasil-Argentina de uma moratória, embora rejeitada liminarmente por Malan, e a declaração de adesão à Alca, feita por FHC na esperança de contar com o beneplácito dos EUA para a obtenção de novos empréstimos do FMI e do sistema financeiro mundial, apenas sinalizam como se avolumam as dificuldades políticas dos governos do cone sul diante das conseqüências da crise internacional.

De qualquer modo, e por via das duvidas, no caso de FHC aumenta a sofreguidão para evitar sua anunciada derrota eleitoral em outubro de 2002 e reverter o quadro de desprestigio e declínio político em que ingressou. Com as inflexões estratégicas descritas acima, ele procura criar uma situação favorável não só para colocar a oposição na defensiva política, como também para viabilizar o núcleo de sua estratégia, que certamente reside na reconstituição da aliança PSDB, PFL, PMDB, como condição essencial para sair do sufoco e derrotar a candidatura do PT, qualquer que seja ela.

O problema reside em que tanto o núcleo dessa estratégia, como seus demais elementos, dependem ainda, para sua concretização, de impedir que Itamar Franco seja sagrado candidato nas previas do PMDB; resolver a disputa interna entre Serra e Tasso, no PSDB; definir a distribuição de lugares entre o PSDB e PFL e o PMDB na chapa da aliança (isto na hipótese de que a ala governista do PMDB consiga arredar Itamar da disputa presidencial); alimentar as manobras divisionistas de Ciro Gomes e Garotinho na esquerda; abafar os casos de corrupção que teimam em pipocar nos órgãos do governo; evitar os desgastes das greves de professores, previdenciários, petroleiros, metalúrgicos e outras categorias, que preferem correr o risco do desemprego a continuar com salários congelados; e mais do que tudo, desqualificar o PT para o exercício do governo central.

Em conexão com essas necessidades, o governo e o tucanato precisam também conquistar a adesão editorial da grande imprensa, utilizando-a para lançar torpedos contra a ética petista (acusações a Marta Suplicy, Benedita da Silva e Olívio Dutra), negar credibilidade aos programas e projetos do PT (crescentes comentários negativos sobre a postura petista a respeito do chamado calote da divida e sobre as propostas de combate a fome) e transformar em total incapacidade política as dificuldades do PT para forjar alianças no primeiro turno das eleições de 2002. As vultosas verbas publicitárias aprovadas recentemente indicam que a batalha da propaganda apenas teve inicio.

Nessas condições, o próprio governo e o tucanato colocam o PT e Lula cada vez mais na berlinda. Queiram ou não, o PT e Lula parecem catapultados bem antes do que desejavam ou mesmo do que supunham possível, seja porque aparecem novamente como a oposição mais definida ao governo, seja porque Lula desponta em primeiro lugar nas preferências do eleitorado. A própria disputa pelo poder impõe, desse modo, cada vez mais suas leis, tanto sobre FHC, com dificuldades crescentes para escolher entre os seus um candidato competitivo, quanto sobre a oposição, que vai sendo empurrada a definir-se sobre questões que gostaria de ver tratadas apenas mais adiante.

Por qualquer lado que se olhe, tanto o Brasil quanto as suas forcas políticas caminham sobre uma situação econômica, social e política nada tranqüila. Basta um tremor para desfazer planos salvadores, deslanchar movimentações massivas ou derrubar equilibristas políticos.

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