Ilusão de classe

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ilusão de classe, n. 458, 23 jul. 2005.

 

 

“Ilusão de classe” é um termo em desuso. Ficou fora de moda, desde que parte da esquerda passou a acreditar que a classe operária não seria nem mesmo classe, quanto mais uma classe destinada a dirigir o processo de transformação da sociedade. Diante da atual crise política, não custa refletir um pouco sobre como esse tipo de ilusão levou um grupo de dirigentes do PT a buscar aliados entre operadores da corrupção.

Tomemos o caso Marcos Valério, um operador de facilidades, bastante ágil nos governos anteriores. Com espantosa rapidez, teve aceitas suas ofertas de serviços de intermediação para angariar fundos destinados às campanhas eleitorais de membros daquele grupo, sem que a maior parte da direção do PT fosse sequer ouvida a respeito.

Não consideraram que esse tipo de “serviço” era contrário à ética petista. Não levaram em conta que estavam tratando com bandidos, e que a ética de bandidos tem por hábito entregar os comparsas quando se vêem abandonados à própria sorte. E sua arrogância não os deixou se importarem com o que poderia ocorrer ao PT e ao governo Lula, se suas operações fossem descobertas e denunciadas.

Pior, enquanto o dinheiro fluía às centenas de milhares ou milhões de reais, utilizaram os recursos para seus próprios fins políticos e para engordar seus patrimônios. Mas, agora que a devassa está em curso, fazem como os antigos barões do café, que socializavam os prejuízos de sua insensatez. Pretendem jogar sobre o PT a responsabilidade por seus atos, ao mesmo tempo em que apelam para a defesa chocha de que não fizeram nada diferente do que todos os demais partidos fazem.

Ilusão de que podiam estender a política de alianças além dos limites das classes realmente aliadas. Ilusão de que, ao se comportarem como os demais, passariam a fazer parte da confraria fisiológica e estariam a salvo. Ilusão de que a hipocrisia do lado de lá não funcionaria a todo vapor se surgisse alguma oportunidade de ouro para destruir o PT e inviabilizar o governo Lula.

Desse modo, o PT chegou a um ponto em que terá que inverter sua pauta normal. Terá que punir os que deslizaram pela rampa da corrupção antes de fazer a discussão sobre as causas que os levaram a isso. Sem tal ato, não terá credibilidade para realizar a discussão de como foi possível haver deixado que “serviços” e “negócios” escusos fluíssem como naturais, tendo como pano de fundo a prática de alianças políticas ilimitadas. Discussão que trará de volta a questão das classes e da “ilusão de classe”, se o PT quiser tirar lições dessa crise que envolveu a si e ao governo popular.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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