Hora de mudar

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Hora de mudar, n. 246, s/d.

 

 

O governo pretende fazer mais uma de suas mágicas: transformar a crise de energia, criada por ele próprio, em ações que mereçam elogios.

Primeiro, ele vendeu irresponsavelmente boa parte das estatais de energia, sem obrigar contratualmente que seus novos donos investissem em geração e transmissão. Depois, impediu que as empresas estatais investissem, com o objetivo de privatizá-las. A seguir, não tomou providência alguma para evitar uma das crises mais alertadas, avisadas e anunciadas da história do país.

Quando a crise se tornou evidente, procurou negá-la. Logo, diante de sua inevitabilidade, fez tudo para culpar São Pedro. Ante as provas que inocentavam o santo, mentiu descaradamente, dizendo-se pego de surpresa. Paralelamente, sua máquina de propaganda armou um alvoroço em torno dos apagões, numa operação conhecida como botar um bode na sala. Ganhou tempo para encontrar uma saída que enfrentasse a crise e mantivesse, ao mesmo tempo, sua política desastrada.

Substituindo os apagões pelo racionamento, FHC quer transformar o negativo em positivo, vender a idéia de que está protegendo os pobres e penalizando os ricos, convencer os brasileiros de que não há outra saída e levá-los a aceitar, patrioticamente, pagar os prejuízos da crise que ele armou. Embora o racionamento tenha se tornado inevitável pela escassez de oferta, a adesão à contenção do consumo seja real e até mesmo líderes da oposição tenham se apressado a fazer sugestões para evitar os apagões, seria um erro crasso aceitar passivamente mais esse programa destrutivo do governo FHC.

O racionamento não será apenas um incômodo ao conforto doméstico e às diversões. Ele representará mais um fator de recessão, quebradeira industrial, desemprego, tentativas de maior exploração sobre os trabalhadores, mais atraso para o país. O que o Brasil precisa são investimentos. Que o setor privado não faz, a não ser que o governo ofereça facilidades para altas tarifas e altos lucros, como deixou claro o presidente da AES americana. E que o Estado não faz, porque o governo está amarrado aos compromissos com o FMI, de pagamento das dívidas internacionais.

Diante disso, os trabalhadores estão certos em suas manifestações. Querem forçar o governo a mudar sua política de privatizações e investimentos, sem o que, além da crise energética e da água, assistirão à explosão de outras crises tão ou mais graves. E, sabiamente, não aceitam redução de seus salários, redução da produção e redução de suas condições de trabalho, pois seria aceitar o desmantelamento mais rápido do país.

A crise energética é o sinal mais sintomático do desastre para o qual o governo FHC conduz o Brasil. Aceitar o racionamento sem que seja modificada a política que nos levou a isso é o mesmo que aceitar ser empurrado para o abismo, sem tempo mesmo para dizer que foi pego de surpresa. É hora de mudar!

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