Honradez e desconhecimento

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Honradez e desconhecimento, n. 211, s/d.

 

 

O ministro Malan é um homem honrado e um “gentleman”. Longe dele fazer como alguns escribas, que sustentam que a dívida externa é um “subproduto da gastança pública” do passado, que financiou uma verdadeira “gandaia nacional” de obras mal priorizadas, elaboradas, contratadas, executadas e auditadas, só possível porque a “reforma radical do Estado brasileiro” é o “maior tabu da esquerda brasileira” e jamais foi concretizada. Para o ministro, a dívida externa deixou de ser problema, a maior parte dela sendo feita para “modernizar as atividades empresariais”.

O ministro Malan é um homem honrado. Não chegaria ao ponto de responsabilizar a esquerda pelas moratórias do passado e pela não-remoção cirúrgica “dos privilégios da Previdência”, “dos abusos dos parlamentares e magistrados” e de outras distorções, que apenas beneficiam “os não-pobres e até mesmo os ricos”. Não chegaria ao ponto de isentar, como certos escribas, “os banqueiros lá fora e os investidores aqui dentro” pela “cultura política da permissividade, da impunibilidade e da pusilanimidade”, nem de verbalizar que os “juros insanos” cobrados por eles se devem ao “risco Brasil do calote”.

O ministro Malan, como um homem que honra seus compromissos, apenas diz que o plebiscito sobre a dívida é inoportuno, fora de lugar e de tempo, embora a CNBB esteja bem intencionada e o PT queira apenas tirar proveito político de uma proposta do Papa. Ao contrário dos escribas, para quem a dívida aumentou por causa da “gastança nacional bruta”, o ministro apenas considera que o plebiscito é fruto do “desconhecimento”, tanto do tema quanto das conseqüências da proposta de calote. Segundo ele, com o calote o Brasil perderá crédito e capitais, que fugirão, atrapalhando a reativação econômica. Então, para não ser responsabilizada por mais esse problema, a esquerda deveria comprometer-se com a manutenção da estabilidade financeira e com a contenção dos gastos públicos.

O engraçado nisso tudo é que a esquerda nunca foi governo (Juscelino era esquerdista?), jamais decretou moratórias (Mailson era do PT?), nem deu calote (Collor era do PC?), jamais pôde nada a respeito da reforma do Estado (FHC e ACM são oposição?), nunca conseguiu levar os inquéritos sobre privilégios até o fim (a esquerda tem pizzaria?) e, por mais que tenha se esforçado para evitar as gastanças governamentais e os desequilíbrios financeiros, jamais foi ouvida pelo poder.

Além disso, como se sabe, os capitais já fugiram do Brasil, e podem voltar a fugir, por motivos bem mais simples do que ameaças de calote por gente que está fora do governo. Da mesma forma que é simples o motivo do plebiscito, cuja participação foi bem acima do esperado: desconhecendo o tema, a esquerda e grandes parcelas do povo querem conhecê-lo. Por que o governo, o honrado Malan e variados escribas ficaram tão incomodados com o fato? Por acaso os argumentos e a honra do governo, do ministro e dos escribas poderiam ser abalados?

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