Hipocrisia

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Hipocrisia, n. 183, 01 mar. 2000.

 

 

O crime organizado agora ocupa as primeiras páginas dos jornais e o centro dos noticiários de TV e rádio, tendo como pretexto os contatos do cineasta João Salles com o traficante Marcinho VP. O eixo da polêmica não passa de hipocrisia pura: um cineasta e documentarista reconhecido, ainda mais oriundo de uma das famílias mais ricas do país, não poderia manter relações profissionais de tipo algum com um chefe de tráfico, mesmo a pretexto de estimular seus dotes literários e abrir canais para libertá-lo daquela atividade criminosa.

Ora, há muito tempo os melhores filhos de nossa burguesia nativa mantém intensa relação com os diferentes escalões do tráfico, dos soldados aos chefes de área, para consumir, transportar ou traficar entorpecentes e, ao que se saiba, só por acidente alguns foram chamados a depor ou se encontram presos. Foi preciso uma CPI da Câmara dos Deputados para levar à prisão de alguns membros dos escalões intermediários do tráfico de drogas e do crime organizado, embora todo mundo soubesse, também há muito, do envolvimento desses personagens.

Muita gente sabe que os verdadeiros chefões do tráfico e do crime, os que financiam movimentos de bilhões de dólares e comandam a sua lavagem em atividades legalizadas, são empresários de estofo nas mais diferentes áreas de negócios, que transitam como figuras bem sucedidas no mundo burguês e jamais foram incomodados pelos  guardiães da lei. Estes, na verdade, gastam seu tempo e o dinheiro do contribuinte perseguindo e prendendo os baixos escalões da bandidagem, onde há massa humana carente em abundância para uma rotatividade sem fim.

A hipocrisia comanda, assim, esse teatro do absurdo em que vale tudo, menos a verdade de que os verdadeiros capos do tráfico e do crime organizado são membros proeminentes da burguesia nativa, com altas ligações internacionais. Aliás, trata-se da mesma hipocrisia que comanda a discussão sobre o exagerado aumento do salário mínimo, que seria capaz de levar a Previdência à falência, sobre o baixo teto salarial dos altos funcionários públicos, que teria como conseqüência sujeitá-los a uma vida de privações, sobre os projetos de combate à pobreza, que só poderiam ter sucesso se contassem com a participação dos mesmos que são responsáveis pela ampliação da miséria, e assim por diante.

Bem vistas as coisas, a celeuma em torno da utopia simplória de João Salles tem alguma razão de ser. A idéia de transformar um traficante pelo trabalho literário pode ser tão perigosa quanto a idéia de que os trabalhadores merecem salários dignos, ou de que o povo deve contar com um governo decente.

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