Hipocrisia e cinismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Hipocrisia e cinismo; 22 abr. 1998.

 

 

Morreram, num espaço de 48 horas, duas figuras de proa do governo FHC: Sérgio Motta, ministro das Comunicações, e Luís Eduardo Magalhães, líder no governo no Congresso. A morte de seres humanos, principalmente quando prematura, é sempre uma pena com a qual nos condoemos.

Mas, do ponto de vista político, embora ambos tivessem papel proeminente na equipe governamental, e apesar dos vaticínios da imprensa em geral, o acontecimento não deve representar qualquer mudança de rumo na política de FHC. É verdade que o presidente terá dificuldade em encontrar substitutos à altura, mas ele próprio frisou que Motta, e por conseqüência, Luís Eduardo, seguiam estritamente a política determinada por ele, FHC.

Portanto, a política que continuará norteando a ação do governo sobre os cenários econômicos, sociais e políticos será a mesma que foi mostrada em dois momentos tão díspares quanto o encontro de cúpula dos presidentes americanos, em Santiago, e a decretação do salário mínimo.

Em Santiago, o presidente apelou dramaticamente a uma luta conjunta contra a pobreza, o desemprego e os problemas sociais. Um exemplo claro de hipocrisia, uma demonstração cabal de afetação de um sentimento inexistente no liberal FHC, cuja verdade foi a decretação de um aumento de 10 reais no salário mínimo.

Mas o deboche deste aumento poderia não ter sido acompanhado de alegações que supõem os brasileiros idiotas e ignorantes, que não sabem sequer fazer conta de somar e diminuir. O ministro do Trabalho afirmou que a Previdência e os municípios não suportariam aumento maior e o próprio FHC anunciou haver dobrado o salário mínimo, como prometera em campanha. Ambos são exemplos típicos do cinismo, desfaçatez ou descaramento com que, além da hipocrisia, o governo trata os problemas sociais, a pobreza, o desemprego e tudo o mais que diz respeito ao Brasil.

É esta mistura de hipocrisia e cinismo que sustenta a idéia de que, estabilizada a economia, tudo voltará ao melhor dos mundos. Na verdade, acabar com a inflação matando a produção e quebrando o povo não é tão difícil. Basta ser hipócrita e cínico. Difícil é baixar a inflação, mantendo o crescimento econômico e da renda da população. Mas isto não está nos planos do sistema financeiro, das grandes corporações transnacionais nem de FHC. Assim, não será a perda de dois personagens importantes que levará o governo a mudar de rumo.

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