Guerra de desgaste

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Guerra de desgaste, n. 444, 16 abr. 2005.

 

 

Deveria ser relativamente consensual que, em qualquer tipo de guerra, a derrota cai sobre quem comete mais erros. Nesse sentido, a responsabilidade pela vitória de Severino Cavalcanti, pelo desgastante episódio da MP 232 e agora, pela derrota na indicação do novo presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), cabem ao PT e ao governo popular.

O pior, no caso, é que tais erros estão ajudando o inimigo a acumular forças. Na disputa da presidência da Câmara, eles ajudaram o PSDB e o PFL a congregar o baixo clero. Na batalha pela MP 232, permitiram à direita arvorar-se porta-voz da “sociedade civil”. E no episódio da indicação do novo presidente da ANP, sinalizaram que a direita consegue arregimentar “aliados” do governo para impor nomes que sejam de seu interesse.

Desde a fragorosa vitória eleitoral de Lula, em 2002, quando foi derrotada, mas não aniquilada, a direita vem tentado recompor-se e retomar a iniciativa política. Procurou diferentes táticas para alcançar esse objetivo, desde os ataques frontais até os acordos pontuais, mas nada disso havia lhe permitido impor derrotas ao PT e ao governo. Ultimamente, porém, ela persevera em utilizar as artimanhas da arte da guerra, induzindo o PT e o governo a cometer erros, por menores que sejam, para tirar o máximo proveito.

Isso tem se tornado mais fácil na medida em que parcelas consideráveis do PT e do governo passaram a acreditar que os mercados e seus agentes são cavalheiros, e que seus representantes políticos obedecem à ética e às regras parlamentares republicanas. Na prática, os mercados e seus agentes só são cavalheiros quando seus lucros podem ser exorbitantes, e não sofrem qualquer ameaça. E a ética e as regras parlamentares só são obedecidas se as bancadas do PT e de seus aliados fiéis não cochilam na crença de que a traição é a regra da vida parlamentar.

Cada vez mais a tática da burguesia, no parlamento e fora dele, assemelha-se a uma guerra de desgaste. Consiste, no Congresso, em impor o máximo de derrotas ao PT e ao governo, usando tanto as oposições, quanto parte dos “aliados” do governo. E, fora do Congresso, mobilizando a “sociedade civil” contra qualquer medida que traga alguma aparência de impopularidade, por menor que seja.

Em vista disso, o PT e o governo talvez devessem rever suas táticas de disputa do apoio popular e de ampliação da base parlamentar. E a parte da esquerda, que já acha Lula e o PT traidores da causa popular e inimigos principais, talvez devesse dar-se conta do quanto contribui para o sucesso da guerra de desgaste levada a cabo pela direita.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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