Guerra? Contra!

Conexão

WPO | ART | CON | Guerra? Contra!; set. 2001.

 

 

Se antes de 11 de setembro, todos os povos tinham que ter na devida conta as políticas dos EUA, a partir do discurso do presidente Bush ao Congresso norte-americano, no dia 20, serão obrigados a definir-se entre estar do lado ou contra a guerra que os círculos dirigentes estadunidenses resolveram desencadear contra o terrorismo e todos os países que, na visão daqueles círculos, permitam ações terroristas.

Bush foi taxativo: quem não estiver com os EUA, estará com o terrorismo. Unilateralmente, o Império abole a neutralidade e determina como parâmetro de terrorismo seu próprio conceito. Os EUA consideram terrorista qualquer pessoa ou grupo que se opõe à política imperial. Jamais consideram terroristas os que financiaram, treinaram e armaram, não apenas os talibãs, Sadam Hussein e outros déspotas árabes, mas o próprio Bin Laden. Isso para não falar do terrorismo praticado pela aviação americana no bombardeamento de populações civis.

Se considerassem tais atos como terrorismo, teriam que iniciar sua guerra prendendo os presidentes norte-americanos que direcionaram bilhões de dólares para as figuras acima e permitiram que a CIA e as forças especiais dos Estados Unidos as treinassem para ações… terroristas. Mas, sem dúvida, isso seria pedir demais.

Os círculos dirigentes dos EUA, controlados por agentes da indústria de armas e do petróleo, já vinham tentando justificar uma nova corrida armamentista como política para superar sua crise econômica. Os atentados apenas lhes deram o pretexto para colocá-la em prática. Alguns dos economistas do Império, como Albert Fishlow, mesmo sob a emoção dos acontecimentos, foram bem pragmáticos e só faltaram agradecer aos terroristas, diante das perspectivas que haviam aberto para a recuperação econômica dos EUA.

Para os belicistas tornou-se possível ampliar a política de guerra muito além de qualquer limite. Ante a perspectiva de um lucro de mil por cento, o capital nunca se contentou com 100 ou 200 por cento, e seus políticos estão fazendo todo o possível para aproveitar ao máximo as possibilidades, mesmo que isso signifique levar a guerra para dentro dos próprios Estados Unidos e, como tem dito Paul Krugman, gere problemas que, em lugar de recuperar sua economia, a tornem ainda mais vulnerável e crítica.

Além disso, as medidas necessárias para uma política de guerra incluem a legalização da espionagem e das ações de eliminação física de supostos ou reais terroristas, o garroteamento das liberdades públicas para evitar qualquer empecilho àquelas ações, o bombardeamento e/ou atentados a qualquer país suspeito de dar guarida a terroristas, e uma série considerável de outras ações de terrorismo de Estado, dentro e fora dos EUA.

Resgatando as décadas de 60 e 70 do século passado, os círculos dirigentes dos EUA querem aproveitar-se da comoção popular norte-americana e do resto do mundo, frente à barbárie cometida por terroristas fundamentalistas, e transformar novamente seu Império no epicentro de um terremoto econômico e político, cujas ondas de fascismo, ditadura, repressão e assassinatos políticos devem atingir todos os países do mundo, em algum momento.

O que sobra aos brasileiros é avaliar o que representa esse terremoto e suas conseqüências sobre o nosso país. Os que pensam que a política de guerra é apenas contra os terroristas afegãos, ou árabes, labutam na ilusão panglossiana de que aqui continuará tudo bem, no melhor dos mundos. Na verdade, além dos choques econômicos e financeiros, cujos efeitos já se fazem sentir, corremos o perigo de ver as ondas de choque políticas do Império destruírem todo o esforço do povo brasileiro para implantar e desenvolver a democracia. Mesmo porque o sabugismo vergonhoso de FHC aponta para uma perigosa tendência de alinhamento incondicional de seu governo ao totalitarismo guerreiro de Bush.

Assim, em defesa da democracia no próprio Brasil, é fundamental separar a solidariedade à dor do povo americano, do apoio à política de guerra de Bush. É necessário opor-se à guerra e condenar, com a mesma ênfase, tanto o terrorismo fundamentalista quanto o terrorismo de Estado dos EUA e de seus aliados. É imprescindível repudiar as tentativas de confundir os povos islâmicos com o terrorismo e exigir do governo brasileiro independência no trato dessas questões. Antes que seja tarde demais e nos vejamos engolfados por uma nova ditadura terrorista que, em nome da liberdade, esmague a oposição popular.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *