Golpistas e nefelibatas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Golpistas e nefelibatas, n. 157, 24 ago. 1999.

 

 

Temos FHC ladeira abaixo, as burguesias corporativistas nativa e estrangeira disputando a repartição da riqueza e do poder do país e o povão ensaiando sair da passividade e ocupar as ruas e praças. Este é um ambiente natural para as forças que detêm o poder assacarem diferentes instrumentos de chantagem e pressão contra a oposição e a esquerda em particular.

Isso vem a propósito das acusações do presidente e de sua equipe de sustentação de que são golpistas os que organizam marchas sem-rumo, ou exigem sua renúnciam ou seu impeachment, e nefelibatas os que consideram a situação do país piorando.

Sabidamente, golpes são assunto sério demais para ser tratado com leviandade. O presidente pode discordar daqueles que, por razões diversas, exigem sua renúncia ou seu impeachment e utilizam estas bandeiras como propaganda contra o governo. Setores da própria oposição podem até afirmar que não concordam com tais bandeiras por serem anti-democráticas e ferirem o calendário eleitoral. E aliados de FHC podem espalhar aos ventos não existem provas concludentes de qualquer crime de responsabilidade cometido pelo presidente.

Mas daí a aceitar a classificação dos defensores da renúncia e do impeachment como golpistas vai uma grande distância. Seria o mesmo que aceitar como crime qualquer posição política contrária ao governo. Que é, aliás, o que insinua o presidente ao pretender transformar, aos olhos da população, a marcha popular de Brasília num ato golpista. O que a ditadura não conseguiu fazer com a força das armas  —  impedir as manifestações populares  — FHC se esforça para obter através da chantagem política.

Na verdade, qualquer mobilização social e qualquer mudança pretendida através da pressão social são consideradas, pelos detentores do poder e, infelizmente, também por alguns segmentos oposicionistas, como rompimento das regras democráticas, golpismo, populismo e outras coisas ao estilo. No tipo ideal de democracia de muita gente no Brasil o povo não entra. É uma democracia que não aguenta povo e, muito menos, povo na rua e exigindo.

Acontece que exigir e ir para rua vai se tornando, obrigatoriamente, uma das poucas condições capazes de forçar o governo a mudar sua política de subserviência ao FMI e às grandes corporações multinacionais e aliviar a pressão econômica sobre as grandes massas marginalizadas, os trabalhadores e camadas consideráveis da classe média empobrecida. E a democracia brasileira terá que de adequar a essa realidade, só não percebida por quem vive nas nuvens. Talvez por isso o presidente tenha se referido a nefelibatas ao olhar-se no espelho.

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