Fumaça e realidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Fumaça e realidade, n. 508, 15 jul. 2006.

 

 

Enquanto os que difundiam o valor universal da democracia se descabelam com as dificuldades que a democracia real apresenta, só faltando xingar o povo por ainda crer em Lula, a campanha eleitoral vai mostrando o papel que cada força política está desempenhando, independentemente do que ela julga sobre sua própria imagem.

Na prática temos dois contendores em oposição frontal, Lula e Alckmin, embora haja quem teime em afirmar que são iguais. Também temos Heloísa Helena e Cristóvam Buarque, que dizem representar a esquerda. Mas, esqueçamos um pouco isso e nos concentremos no tabuleiro da disputa concreta.

Embora Heloísa Helena e Cristóvam Buarque se esforcem, qualquer um sabe que suas chances são reduzidas. Eles mesmos declaram que sua base social é pequena, seus partidos são diminutos, e contam com pouco apoio de setores em condições de ajudá-los financeiramente. Aparentemente, contam apenas com os ideais que proclamam defender.

Lula, por seu turno, apesar do bombardeio sofrido pelas CPIs do Congresso, permanece com uma alta intenção de votos e com chances de vitória. Vai jogar pesado para demonstrar que, apesar de tudo, representou um considerável avanço em relação ao governo passado. Além disso, vai repisar a idéia de que uma possível vitória de Alckmin significará o retorno da turma do FHC, embora para alguns setores de esquerda isto nada signifique.

Alckmin, por seu lado, vestiu a camisa do anti-Lula, numa jogada para transformar-se no pólo de atração dos que estão contra o presidente e o PT. Seu crescimento, apontado nas recentes pesquisas eleitorais, mostra justamente isso. Ele não conseguiu derrubar o patamar de Lula, mas conseguiu atrair votos dispersos dos descontentes. E, para sua sorte, como apontou Luiz Antonio Magalhães, ele não tem ninguém de seu campo social e político disputando o mesmo espaço. Assim, tem chances de unificar toda a direita.

Porém, isso também limita seu crescimento. Para chegar ao segundo turno, ele terá não só que crescer nas preferências eleitorais, mas derrubar as preferências por Lula. Será necessário que a estratégia tucano-pefelista atraia parte da esquerda descontente para a candidatura Alckmin. Se isso não acontecer, como qualquer um sabe, talvez antes do final de agosto a direita tenha que irrigar as campanhas dos dois candidatos de esquerda (queiram eles ou não), de modo que elas corroam a campanha Lula.

Assim, como já aconteceu várias vezes na história, parte da esquerda faz muita fumaça, mas na realidade trabalha para ajudar a direita a derrotar outra parte da esquerda. Talvez fosse mais direto fazer como o PPS, que apóia o candidato tucano por achá-lo comprometido com a ética, os pobres e o desenvolvimento.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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