Fogo amigo também mata

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Fogo amigo também mata, n. 351, 21 jun. 2003.

 

 

Recrudesceram, na última semana, eventos que certos círculos vêm chamando de “fogo amigo”. As manifestações dos servidores públicos, o manifesto dos economistas e a entrevista de Chico de Oliveira à Folha de São Paulo, tudo isso vem sendo catalogado como “fogo amigo”. Isto é, tiros ou bombardeios que, ao invés de serem direcionados contra os inimigos, atingem as próprias forças.

Há, evidentemente, certo embaralhamento proposital a respeito da natureza desse “fogo”. Parte dos servidores exerceu o direito democrático de protestar contra a reforma da Previdência por acreditar que ela é contrária a seus interesses. O manifesto dos economistas arrolou sugestões que seus subscritores crêem mais adequadas a um governo petista e alertaram para o perigo de uma recessão. E Chico de Oliveira não só asseverou que as reformas propostas pelo governo Lula são autoritárias, como expressou sua opinião de que não existe qualquer possibilidade desse governo cumprir seus compromissos de campanha.

São, pois, manifestações diferentes na forma e no conteúdo. Mas os três têm em comum o fato de representarem as discordâncias, preocupações e até as angústias de setores que votaram em Lula e esperavam outro tipo de política em relação a alguns problemas candentes da situação brasileira. Por isso, mesmo discordando delas, os círculos dirigentes do PT e do governo precisariam tratá-las como críticas ou divergências dentro do campo popular. Ou seja, realmente como “fogo amigo” e não como “fogo inimigo”.

Hostilizar ou desqualificar essas manifestações, como fizeram alguns setores do partido e do governo, significa pisar no mesmo terreno movediço em que se atolaram alguns segmentos da extrema-esquerda, que tomam Lula e seu governo como inimigo principal. Se a transição é um caminho difícil e complexo para o governo, ela também o é para as forças populares que o apóiam e que nem sempre estão informadas sobre as táticas empregadas para escapar das armadilhas deixadas pelo passado governo neoliberal.

Distinguir entre a tática de construir as condições para as mudanças, tática que possui um forte viés continuísta, e um provável pacto estratégico, de longo prazo, com os setores econômicos dominantes, às custas das forças populares, é tão difícil quanto distinguir os setores da burguesia que são aliados e os que são inimigos nesta etapa do governo democrático e popular. Não por acaso, o ex-presidente FHC e seus tucanos estão procurando aproveitar-se das castanhas que estão no fogo para tentar desqualificar o PT e o governo.

Nessas condições, se o “fogo amigo” pode ser desastroso, responder a ele como se fosse “fogo inimigo” pode ser tão ou mais desastroso. Mais do que nunca, o campo popular e o governo que elegeu precisam dar-se conta de que é preciso mais empenho em distinguir claramente quem é amigo de quem é inimigo. Mesmo porque “fogo amigo” também mata.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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